Sim, houve detidos após incêndio nos ministérios em 2017, que não é visto em uma das fotos virais

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Publicações que mostram três imagens de edifícios em chamas durante atos de protesto foram compartilhadas mais de 49,2 mil vezes nas redes sociais desde meados de fevereiro de 2021 com a afirmação de que se trata de um caso ocorrido em 2017, quando ministérios foram incendiados em Brasília. E complementa que, apesar disso, o Supremo Tribunal Federal não mandou prender ninguém. Uma das fotos, contudo, não é do mesmo caso e oito pessoas envolvidas na ação foram detidas.

“Lembremo-nos de 2017, quando 50 terroristas da esquerda, devidamente identificados com bandeiras, atearam fogo em dois Ministérios, o da Agricultura e da Saúde. Alguém lembra se o STF mandou prender alguém por ato terrorista?”, indica o texto que acompanha as fotos nas postagens, que circulam desde junho de 2020, mas voltaram a ser amplamente compartilhadas em fevereiro de 2021 no Facebook (1, 2, 3).

Essas imagens, juntamente à alegação sobre os manifestantes que atearam fogo em ministérios, também foram encontradas no Instagram e no Twitter (1, 2, 3) desde 2020.

Captura de tela feita em 24 de fevereiro de 2021 de uma publicação no Facebook

Fogo nos ministérios?

Em 24 de maio de 2017 ocorreu um protesto em Brasília contra o governo de Michel Temer (2016-2018) depois da divulgação de uma gravação em que o então presidente parecia apoiar o pagamento de propina ao ex-deputado Eduardo Cunha.

Com o ataque de manifestantes a ministérios como o de Minas e Energia, dos Transportes, do Planejamento, da Fazenda e do Turismo, inclusive com a invasão e o ateamento de fogo em uma sala do Ministério da Agricultura, Temer convocou tropas federais, decisão da qual voltou atrás após críticas.

A imprensa também reportou que havia focos de incêndio próximo ao Ministério da Saúde.

Uma busca reversa no Google pelas três imagens viralizadas mostra, contudo, que uma delas não corresponde a esse caso de 2017.

A primeira foto, de vários andares pegando fogo, foi encontrada em um texto publicado no site do Jornal O Globo e na revista Veja sobre um tuíte do então ministro do Desenvolvimento Social e Agrário Osmar Terra criticando o protesto de 24 de maio de 2017, mas usando uma foto do incêndio ocorrido em um prédio do INSS em 2005 (1, 2, 3).

Uma busca por reportagens da época levou a um vídeo no portal de notícias G1, o que permitiu comparar as imagens e identificar que se tratava do mesmo edifício.

Combinação de fotos feita em 24 de fevereiro de 2021 com a postagem viralizada (à esquerda) e o vídeo do G1

A segunda e terceira imagens, que mostram manifestantes, são do protesto ocorrido em Brasília em maio de 2017.

Uma busca reversa pela foto em que um homem é visto prestes a lançar algo dentro de uma sala em chamas mostra que ela foi publicada no site do jornal Metrópoles com crédito ao fotógrafo Michael Melo, em um texto que retoma o ocorrido na Esplanada dos Ministérios em 24 de maio de 2017.

No perfil de Melo no Instagram também é possível encontrar a mesma fotografia com a descrição “24 de maio de 2017 - Esplanada dos Ministérios”.

A terceira imagem é, na realidade, uma captura de tela de uma transmissão feita pela emissora GloboNews, como se pode ver em uma das fotos viralizadas.

Uma busca reversa pelo registro levou ao texto publicado pelo jornal Correio também em 24 de maio de 2017 intitulado “Dois ministérios são incendiados por manifestantes em Brasília”. Em um dos cartazes segurados por um manifestante é possível ler, inclusive, a expressão “Fora Temer”, muito utilizada nos protestos contra o governo do então presidente.

O Ministério da Agricultura durante protestos contra o governo de Michel Temer em Brasília, em 24 de maio de 2017 (Andressa Anholete / AFP)

De fato, em 24 de maio de 2017, o programa “Estúdio i” da emissora transmitiu diversas imagens do protesto e o confronto de manifestantes com policiais.

Após a ação na Esplanada dos Ministérios, os meios de comunicação (1, 2, 3) divulgaram uma nota do governo do Distrito Federal a respeito da detenção de oito pessoas: três por “porte de substância entorpecente para consumo pessoal e porte de arma branca, uma por porte de arma branca, duas por resistência e pichação, uma por lesão corporal e resistência e uma por desacato”.

A prisão de Daniel Silveira

Essas publicações voltaram a circular nas redes em meio a uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, em 16 de fevereiro de 2021. Ele determinou a prisão em flagrante do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), que divulgou um vídeo defendendo o AI-5, que marcou o período de maior repressão da ditadura militar,  e o fechamento do STF, ação que é inconstitucional segundo o inciso XLIV do artigo 5º da Constituição Federal.

No Brasil, a Lei de Segurança Nacional indica em seu primeiro artigo que são considerados crimes “que lesam ou expõem a perigo de lesão: a integridade territorial e a soberania nacional; o regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito; a pessoa dos chefes dos Poderes da União”.

No dia seguinte à prisão de Silveira, o plenário do STF manteve, por unanimidade, a decisão do ministro Moraes. Após uma audiência de custódia, a prisão do parlamentar foi igualmente mantida, o que foi seguido pela Câmara dos Deputados.

Um conteúdo semelhante também foi checado pelas equipes do Estadão Verifica, Aos Fatos e E-farsas.

AFP Brasil