Questionado sobre o que faria se seus filhos namorassem uma mulher negra, Bolsonaro afirmou que eles “foram bem educados”; depois, declarou ter entendido a pergunta errado

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Postagens compartilhadas mais de 2.400 vezes nas redes sociais desde 3 de março de 2020 afirmam que o presidente Jair Bolsonaro declarou que não corria o risco de ter uma nora negra, pois seus filhos “foram bem educados”. Colocada em dúvida pelos usuários do Facebook, esta frase exata não foi dita pelo atual presidente. No entanto, uma declaração semelhante foi feita durante uma série de perguntas em um quadro do programa CQC em 2011, pela qual, inclusive, chegou a ser processado.

“SÓ PRA LEMBRAR: ‘Não corro o risco de ter uma nora negra porque meus filhos foram bem educados’ (Bolsonaro, Jair)”, dizem os textos das publicações (1, 2, 3), compartilhadas mais de 2.400 vezes desde o último dia 3 de março. Por vezes, as postagens são acompanhadas de legendas como: “O Presidente de vocês”.

Nas postagens, muitos usuários colocaram em dúvida a frase: “Já estão até pondo palavras na boca do Bolsonaro, será quê este povo não tem oque fazer [sic], “Duvido q ele tenha falado nesse contexto!!!”, “Está página aqui é só pra dar risadas né, é tanto Fake News que eles postam que dá pra saber o desespero que a esquerda está kkkkkkk”, “Essa mesma babaquice, a frase foi outra”, foram alguns dos comentários.

Em uma busca no Google pela frase exata vista nas publicações viralizadas há apenas um resultado, de um texto publicado na plataforma Medium, que não especifica a origem dessa declaração.

Já em uma pesquisa geral pelos dizeres aparece como resultado, por sua vez, um vídeo de março de 2011 no qual o então deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) participa de um quadro do programa de televisão CQC intitulado “Povo quer saber”. Neste, diferentes pessoas enviavam perguntas a serem respondidas pelo deputado.

A última pergunta do quadro, feita pela cantora Preta Gil, foi: “Se o seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?”, ao que Bolsonaro declarou: “Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados, e não viveram em ambientes como, lamentavelmente, é o teu”.

Pouco depois da grande repercussão do caso na mídia, o programa CQC voltou a falar com o então deputado Bolsonaro para que ele tivesse direito de resposta ao rever as perguntas e afirmar se manteria ou não o que havia dito anteriormente.

Embora tenha confirmado tudo o que falou, ao ouvir a sua última declaração Bolsonaro indicou: “A resposta dada por mim não se encaixa na pergunta. Ou eu errei, e não entendi a pergunta, ou vocês, já que foi uma bateria de perguntas, na hora de editar, editaram...”.

Ao colocar em dúvida uma possível manipulação de sua fala, o jornalista Danilo Gentilli assinalou que cada pessoa só tinha direito a fazer uma pergunta. A isto, o então deputado federal assinalou: “Então tudo bem, então não há dúvidas no tocante a isso. Eu quero até crer que eu não tenha entendido a pergunta, até porque eu não gosto da Preta Gil, é um direito meu não gostar dela [...] Eu responderia o seguinte, se eu tivesse entendido a pergunta: ‘O problema é dele, ele é maior de idade, o problema é dele’”.

O presidente Jair Bolsonaro durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília, em 20 de setembro de 2019

Após a primeira resposta de Bolsonaro, a cantora anunciou em seu perfil no Twitter que havia acionado seu advogado: “Advogado acionado,  sou uma mulher Negra, forte e irei até o fim contra esse Deputado, Racista, Homofobico, nojento, conto com o apio de vcs [sic].

O atual presidente da República foi processado por algumas declarações feitas nessa entrevista. A ação que corria no Supremo Tribunal Federal (STF) foi arquivada em 2015 sob o argumento de que a emissora na qual o programa era exibido, a TV Bandeirantes, não disponibilizou a gravação completa e, por isso, não seria possível confirmar se a declaração dada por Bolsonaro tinha relação com a pergunta feita.

Já o processo que tramita na Sexta Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) teve como decisão mais recente, em 2019, a condenação de Bolsonaro a pagar R$ 150 mil ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDDD) por danos morais. Nessa ação, no entanto, ainda cabe recurso.

Em resumo, Jair Bolsonaro deu uma resposta semelhante à frase que viralizou nas redes sociais ao afirmar que seus filhos “foram muito bem educados” diante do questionamento de o que faria se um de seus filhos se apaixonasse por uma mulher negra. Posteriormente, o então deputado federal indicou que a sua fala poderia ter sido editado, ou então que não havia entendido a pergunta.

AFP Brasil