O título da revista Time é concedido a quem teve o maior impacto no ano “para o bem ou para o mal”

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Após a ativista sueca Greta Thunberg ser escolhida a “pessoa do ano” de 2019 pela revista Time, a afirmação de que o título já foi concedido a líderes como o alemão Adolf Hitler, o soviético Josef Stalin e o iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini começou a circular nas redes sociais. Colocada em dúvida por alguns usuários, a informação é verdadeira. A revista explica que escolhe a pessoa que teve maior impacto nas notícias do ano, “para o bem ou para o mal”.

“Depois de já ter elegido o líder da seita nazi, o líder da seita comunista, um líder de uma seita islâmica agora foi a vez de eleger a líder da seita climática. Coerência acima de tudo”, diz uma das publicações, compartilhada ao menos 5 mil vezes no Facebook desde 12 de dezembro.

A afirmação, viralizada após a ativista ambiental Greta Thunberg ser escolhida a personalidade do ano pela Time no último dia 11 de dezembro, aparece em diversas outras postagens no Facebook (1, 2, 3), Twitter (1, 2) e Instagram (1, 2).

De fato, a revista norte-americana escolheu Hitler como a “pessoa do ano” de 1938, Stalin de 1939 e 1942 e Khomeini de 1979. No entanto, essa escolha não é necessariamente uma exaltação dos feitos destas personalidades, como explica a própria Time.

Como é a seleção da “pessoa do ano”?

Desde 1928, editores da revista norte-americana estampam a capa de uma de suas edições com a pessoa - ou por vezes o objeto, ou o arquétipo - que consideram que mais marcaram o ano.

Como explica em seu site, o título é concedido àqueles “que tiveram maior impacto nas notícias ou em nossas vidas, para o bem ou para o mal, e que encarnaram o que foi importante no ano, para melhor ou para pior”. Como consequência, “a pessoa não é necessariamente um herói”, afirma.

A revista reconhece que isso resulta, muitas vezes, em escolhas controversas, citando justamente Hitler, Stalin e Khomeini.

“É solicitado que os editores escolham a pessoa ou a coisa que teve o maior impacto nas notícias (...) - diretrizes que não os deixam outra opção a não ser selecionar um sujeito digno de notícia e não necessariamente louvável”, explica.

Foto de 1939 mostra o chanceler alemão Adolf Hitler fazendo saudação nazista em comício em Berlim

Adolf Hitler

Em 1939, a Time estampou sua capa de pessoa do ano anterior com uma imagem de Hitler tocando um instrumento musical, sob a manchete: “Do organista profano, um hino de ódio”.

Na época, Hitler já havia consolidado seu poder na Alemanha, iniciado o envio de judeus a campos de concentração, anexado a Áustria e começava sua ação contra a então Tchecoslováquia. 

“Quando, sem perda de sangue, ele reduziu a Tchecoslováquia a um Estado fantoche alemão, forçou uma revisão drástica das alianças defensivas na Europa e conseguiu um passe livre para si mesmo na Europa Oriental (...), Adolf Hitler se tornou, sem dúvidas, o homem do ano de 1938”, afirmou a Time em 1939.

O texto destaca o caráter “cruel” das ações do líder nazista e justifica, com a seguinte frase, sua nomeação: “Hitler se tornou em 1938 a força mais ameaçadora que o mundo democrático e amante da liberdade enfrenta hoje”.

Foto não datada mostra o chefe de Estado da União Soviética Josef Stalin acenando

Josef Stalin

Já o líder comunista Josef Stalin foi nomeado duas vezes, em 1939 e 1942.

Em 1939, às vésperas do início da Segunda Guerra Mundial, Stalin assinou um pacto de não agressão com a Alemanha de Hitler, possibilitando, segundo escreveu a Time em 1940, o início do conflito global.

“Se a nova era da Europa terminará em um caos nacionalista, em um internacionalismo bom ou mal, ou algo do tipo, a era será nova -e o fim da era antiga terá sido finalmente precipitado por um homem cujo domínio se encontra principalmente fora da Europa. (...)  Isso fez de Josef Stalin o homem de 1939. A história pode não gostar dele, mas a história não pode esquecê-lo”, afirmou a revista na época.

Em 1942, Hitler havia rompido o pacto de não agressão e invadido a União Soviética. Na Batalha de Stalingrado, as tropas soviéticas lideradas por Stalin derrotaram os alemães.

“Se as legiões alemães tivessem ultrapassado o resistente Stalingrado e liquidado o poder de ataque russo, Hitler teria sido não apenas o homem do ano, mas ele teria sido o mestre indiscutível da Europa, procurando outros continentes para conquistar (...) Mas, Josef Stalin o deteve”, publicou a revista em 1943.

Aiatolá Khomeini durante reunião em Teerã em 5 de fevereiro de 1979

Aiatolá Khomeini

Em 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini foi eleito o homem do ano pela Time com o título: “O místico que acendeu o fogo do ódio”. 

Naquele ano, Khomeini havia se estabelecido como líder político e religioso do Irã, que foi declarado uma República Islâmica. Sua chegada ao poder foi seguida pela invasão da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, onde norte-americanos foram mantidos reféns por mais de um ano por militantes islâmicos.

“A importância de Khomeini transcende em muito o pesadelo da tomada da embaixada, transcende, de fato, a derrubada do xá do Irã. A revolução que ele levou a triunfo ameaça perturbar o equilíbrio mundial de poder mais do que qualquer evento político desde a conquista da Europa por Hitler”, escreveu a Time em 1980, na justificativa de escolha do líder iraniano.

Ativista sueca Greta Thunberg é fotografada em Lisboa em 3 de dezembro de 2019

Greta Thunberg

Este ano, a pessoa eleita pela Time foi a ativista sueca Greta Thunberg, que inspirou um movimento global e se tornou símbolo da ação contra a mudança climática quando começou a faltar aulas às sextas-feiras para protestar em frente ao Parlamento sueco, pedindo que as autoridades reduzissem as emissões de carbono e tomassem medidas para controlar o aquecimento global. 

O tom da reportagem sobre Greta é, no entanto, bastante diferente do adotado nos textos sobre os líderes citados anteriormente.

“Por soar o alarme sobre a relação predatória da humanidade com o único lar que nós temos, por trazer a um mundo fragmentado uma voz que transcende origens e fronteiras, por mostrar a todos nós o que pode acontecer quando uma nova geração lidera, Greta Thunberg é a pessoa do ano da Time em 2019”, escreveu Edward Felsenthal, editor-chefe da publicação .

Em resumo, é verdade que Hitler, Stalin e Khomeini já foram nomeados a personalidade do ano pela revista norte-americana Time. A publicação frisa, no entanto, que escolha é baseada no impacto que a pessoa teve ao longo de determinado período e que não se trata, necessariamente, de uma exaltação de seus feitos. Esta conclusão é reiterada pelos textos que justificaram cada uma dessas indicações na época de sua publicação.