O ministro da Saúde de Israel teve a COVID-19, mas não há registros de que ele tenha dito que a pandemia é uma “punição aos gays”

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Artigos compartilhados milhares de vezes nas redes sociais desde o início de abril afirmam que o ministro da Saúde israelense, Yaakov Litzman, infectado com a COVID-19, havia declarado que a pandemia de coronavírus era uma “punição divina aos homossexuais”. Contudo, não há nenhum registro de que o ministro tenha dado essa declaração. O primeiro site que publicou a matéria fez, inclusive, uma retificação em seu conteúdo posteriormente.

“Ministro de Israel que afirmou que coronavírus é ‘punição divina aos gays’ testa positivo”, “Ministro de Israel que chamou a Covid-19 de ‘punição divina aos gays’ está com a doença” e “Ministro de Israel que chamou Covid-19 de ‘castigo gay’ testa positivo para doença”, são alguns dos títulos dos artigos (1, 2), publicados no último dia 7 de abril e compartilhados mais de 12 mil vezes nas redes sociais.

Captura de tela feita em 17 de abril de 2020 de publicação no Facebook

“O ministro da Saúde de Israel, Yaakov Litzman, 71, testou positivo para o Covid-19 [sic] apenas um mês depois de classificar o coronavírus como uma ‘punição divina à homossexualidade’. As informações são da mídia internacional”, assinala um dos textos, complementando: “No mês de março, durante discurso em que falou sobre as suas crenças a respeito da origem do coronavírus, Yaakov Litzman disse a seguidores: ‘É um castigo divino contra a homossexualidade’”.

A equipe de checagem da AFP no Brasil entrou em contato por e-mail com o Ministério da Saúde de Israel para confirmar se, de fato, o ministro Yaakov Litzman havia sido infectado com a COVID-19, ao que o porta-voz do Ministério da Saúde israelense respondeu: “Confirmamos que o ministro Litzman foi infectado com a COVID-19”.

Por e-mail, o porta-voz do ministério também indicou que as afirmações de que o que ministro Litzman teria associado a pandemia aos homossexuais são “fake news” e que ele “nunca fez tal declaração”.

Após a publicação por muitos portais, o primeiro a divulgar a suposta declaração de Litzman, o site britânico PinkNews, fez uma correção em seu texto: “Uma versão inicial deste artigo fazia referência a dois relatos imprecisos sobre Yaakov Litzman ter culpado a pandemia à homossexualidade. Isto já foi corrigido”, em tradução livre do inglês. Apesar disso, o endereço na barra de digitação para pesquisa ainda mostra o título inicial.

Até a correção ser feita, contudo, alguns sites replicaram a notícia da contaminação do ministro, juntamente à suposta afirmação feita por ele de que a pandemia de coronavírus seria uma “punição divina aos homossexuais”. Depois, estes sites também corrigiram seus artigos.

Punição divina aos homossexuais?

Pesquisando pelos termos em inglês “Divine punishment for homosexuality” (“punição divina para os homossexuais”, em tradução livre para o português), o AFP Checamos encontrou dois sites de notícias israelenses - Israel Hayom e Jerusalem Post - que atribuem uma fala semelhante ao rabino Meir Mazuz.

Em 9 de março de 2020, o Israel Hayom, por exemplo, indicou em seu texto: “O rabino Meir Mazuz, [...] chefe da yeshiva Kisse Rahamim (Assambleia da Misericórdia), disse no domingo que a recente propagação do vírus era uma punição pelas paradas LGBTQ. Falando no Kisse Rahamim na noite de sábado, Mazuz disse: ‘A Parada do Orgulho é um desfile contra a natureza, e quem quer que aja contra a natureza, Aquele que criou a natureza irá vingar’”.

Em Israel os primeiros casos foram oficialmente registrados em fevereiro. No dia 23 daquele mês, haviam sido divulgado dois infectados no país, passageiros repatriados do navio “Diamond Princess”, que estava ancorado no porto japonês de Yokohama.

Ancorado no porto de Yokohama desde 3 de fevereiro, o “Diamond Princess” só pode deixá-lo em 25 de março, com o término dos trabalhos de desinfecção. Os passageiros do cruzeiro tiveram que permanecer em suas cabines durante duas semanas em quarentena a partir do dia 5 do mesmo mês, depois que uma pessoa que desembarcou em Hong Kong apresentou resultado positivo para o exame do coronavírus.

Judeus ultraortodoxos usam máscara cirúrgica como precaução contra o novo coronavírus durante um funeral em Jerusalém, em 5 de abril de 2020

No final de março, quando Israel já registrava mais de 4.800 casos de contágio e 17 mortes, a AFP reportou a intensificação das rondas policiais nos bairros de judeus ultraortodoxos, pois parte da população estava violando as regras sanitárias, como, por exemplo, quando centenas de pessoas se reuniram no funeral de um rabino, apesar das autoridades limitarem o número máximo de pessoas em enterros a 20.

Por conta da contaminação pela COVID-19 do ministro da Saúde israelense, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu entrou em quarentena por precaução, como foi noticiado pela AFP no último dia 2 de abril.

De acordo com as informações divulgadas em no último dia 20 de abril pela imprensa local, o ministro Litzman se recuperou completamente da COVID-19, após os resultados de consecutivos testes para a doença darem negativo. “Fui avisado da minha recuperação total do vírus, graças a Deus. Foi uma ótima oportunidade para mim de ficar ciente do trabalho dedicado da preciosa equipe médica deste país”, indicou em declaração.

Neste mês de abril, as ações do ministro Litzman em resposta à pandemia foram consideradas por alguns como um “fracasso catastrófico” por não ter transmitido rapidamente a ameaça do coronavírus à comunidade judaica ultraortodoxa.

Até este 28 de abril, mais de 3 milhões de pessoas foram contaminadas pelo novo coronavírus em todo o mundo e mais de 210 mil faleceram em decorrência da COVID-19.

Em resumo, o ministro da Saúde de Israel, Yaakov Litzman, realmente foi infectado com a COVID-19, contudo não há registros de que ele tenha dito que a pandemia de coronavírus seja uma “punição divina aos homossexuais”, como indicaram publicações viralizadas, algumas delas posteriormente retificadas.

EDIT 28/04: Atualiza com a recuperação do ministro Litzman da COVID-19, número de vítimas e 
infectados no mundo e o título
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