O ensino de religião não foi proibido na Islândia; a fonte da informação é um portal satírico
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- Publicado em 21 de novembro de 2019 às 21:24
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- Por Rafael MARTI, AFP España, AFP Brasil
“Só notícia boa desse país! Vai planeta”, diz uma das publicações, compartilhada mais de 1.800 vezes no Facebook desde último 18 de abril. A legenda acompanha um artigo do site CPAD News intitulado “Islândia proíbe ensino religioso a menores de 21 anos”.
Desde que foi publicado em 17 de setembro de 2018, o texto foi compartilhado mais de 10 mil vezes em diversas postagens em redes sociais (1, 2, 3). A mesma alegação aparece em outros sites (1, 2, 3) e também circula em espanhol e catalão.
No entanto, uma busca no Google pela suposta medida adotada na Islândia não leva a qualquer registro informativo.
A pesquisa tampouco encontra informações sobre a Lei Nacional de Ensino Religioso Mínimo (NMRIA, na sigla em inglês), citada no artigo, ou sobre organizações como a Mothers Against Religion (MAR), a quem o texto atribui a iniciativa de proibir o ensino religioso.
Um artigo satírico
O único resultado encontrado com a mesma informação do texto viralizado é um artigo em inglês intitulado “Iceland Raises Age Of Religious Consent To 21” (“Islândia aumenta a idade de consentimento religioso para 21”), publicado em 27 de agosto de 2018 em um site que o CPAD News menciona como fonte no início de seu artigo.
No entanto, a suposta fonte não é nada mais que um artigo satírico, identificado como tal ao final do texto e publicado em uma página cujo nome é “Laughing in disbelief. Liberté, Égalité, Absurdité” (“Rindo com descrença. Liberdade, Igualdade e Absurdo”).
O autor da página é Andrew Hall, que se autodefine como “comediante”. No entanto, o artigo chegou a ser compartilhado como uma notícia verdadeira, por exemplo, em setembro de 2018 em inglês.
Embora o ensino religioso não seja proibido na Islândia, os representantes locais das três principais religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo) manifestaram, em março de 2018, seu desconforto com uma proposta parlamentar para proibir a circuncisão sem fins médicos, alegando que a medida iria contra a “liberdade religiosa”. A circuncisão consiste na remoção do prepúcio masculino de bebês recém-nascidos e é uma tradição do judaísmo e do islamismo.
A lei da Islândia pretende evitar “danos ao corpo ou a saúde de um menino ou de uma mulher eliminando todo ou parte de seus órgãos sexuais”. Por outro lado, o artigo 63 da Constituição da República do país reconhece a liberdade religiosa.
Em resumo, a Islândia não proibiu o ensino religioso até os 21 anos. O boato viralizou após um site de notícias cristão tomar como verdadeiro um texto em inglês publicado em uma página satírica.
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