Não, o vídeo é uma ficção produzida por grupos antiaborto

Um vídeo compartilhado mais de 160 mil vezes em redes sociais desde abril alega mostrar “o sofrimento do feto em um aborto”. Trata-se, na verdade, de um filme de ficção dirigido por dois cineastas antiaborto com a ajuda de uma associação cristã “pró-vida”. De acordo com diversos ginecologistas consultados pela AFP, um feto de 13 semanas não pode sentir dor.

Diversas páginas no Facebook (1, 2) publicaram um vídeo supostamente filmado durante um aborto cirúrgico guiado por ultrassom. Nas imagens, vemos um feto se contraindo diversas vezes, antes de ser aspirado por uma bomba.

Captura de tela da publicação viralizada no Facebook, feita em 9 de julho de 2019

A legenda de uma das publicações, compartilhada mais de 89 mil vezes e com aproximadamente 2,6 milhões de visualizações no Facebook, precisa: “Olha aí se um feto não sofre! Como é um aborto! A dor de quem não foi planejado!”.

Contudo, uma rápida busca reversa* por frames do vídeo permite concluir que as imagens fazem parte, na verdade, de um filme de ficção intitulado “Unplanned”, lançado em 29 de março de 2019 nos Estados Unidos, no momento em que diversos estados norte-americanos buscavam limitar o direito ao aborto.

O filme, que dispunha de poucos recursos e tinha difusão limitada nos cinemas norte-americanos, obteve um sucesso surpreendente e receita superior a 8,6 milhões de dólares na América do Norte, somente uma semana após o lançamento.

“Unplanned” conta a história real de Abby Johnson, uma ex-diretora de um centro de abortos da organização Planned Parenthood, que se torna uma militante antiaborto após assistir a um aborto cirúrgico guiado por ultrassom.

Mas, as imagens são realistas?

De acordo com o relato feito por Abby Johnson em seu site, a cena supostamente representa o aborto por aspiração de um feto de 13 semanas. Três ginecologistas consultados pela AFP no fim de junho confirmaram que o tamanho do feto visto na tela corresponde a de um feto de 13 semanas.

No Brasil, o aborto só é legalizado em três situações: quando a gravidez é decorrente de estupro, quando há risco à vida da mulher e quando o feto é anencéfalo. Nos dois últimos casos, não há limite para o período da gravidez em que o aborto pode ser realizado. Em caso de estupro, o procedimento pode ser realizado até a 20ª semana de gestação.

Nos Estados Unidos, de acordo com o julgamento emblemático “Roe v. Wade”, o aborto é possível dentro do limite da “viabilidade do feto”, ou seja, até cerca de 24 semanas de gravidez, com a exceção de alguns estados que, recentemente, adotaram uma política mais restritiva. 

Legislação contra o aborto introduzida em alguns estados dos EUA em 2019.

Os três médicos são, contudo, mais reservados quanto ao escopo destas imagens: “Para mim, estas imagens não são totalmente irrealistas, mas elas são selecionadas intencionalmente para amedrontar as mulheres”, explica o ginecologista Bernard Hédon, chefe de departamento do Centro Hospitalar Universitário de Montpellier, explicando que o vídeo dá a entender que os movimentos do feto são devidos à dor.

“Durante um aborto, o feto pode realmente ter movimentos bruscos, aliás, como no resto da gravidez, mas isso não tem, de modo algum, um significado de dor”, explicou. “Há fetos que podem se mover muito em momentos normais”.

“No momento em que introduzimos uma cureta, isso realmente balança o saco embrionário e faz o embrião se mover”, confirmou Sophie Gaudu, ginecologista obstetra, responsável pela unidade de planejamento familiar e de aborto do hospital Bicêtre, perto de Paris, “mas para sentir a ‘dor’, que nós chamamos na verdade de nocicepção, é só depois das 20 semanas”.

De fato, “nós sabemos que um embrião ainda não desenvolveu seus centros de dor às 13 semanas”, garantiu o Dr. Israël Nisand, ginecologista obstetra e presidente do Colégio Nacional de Ginecologistas Obstetras Franceses (CNGOF). “Isso acontece, em vez disso, por volta das 22 semanas de amenorreia [ausência de menstruação por mais de três meses em uma mulher com ciclo regular].

“A alternância dos planos da tela com aqueles de um rosto chorando estão lá para sugerir que se trata de dor, querem jogar com o emocional, é o gênero de filme típico de organizações que querem convencer que o aborto é uma coisa ruim”, acrescenta o Dr. Hédon, acompanhado por seu colega: “estas imagens são inteligentemente manipuladas e montadas para assustar as mulheres”.

A ginecologista obstetra Sophie Gaudu denuncia também “todo um decoro da dor” e lembra que a paciente é anestesiada para um aborto cirúrgico, e que o mesmo acontece com o embrião que ela carrega. Ela ressalta que um aborto cirúrgico por ultrassonografia não acontece desta maneira, principalmente no modo como o feto é aspirado.

Uma reportagem da revista Texas Monthly revelou uma série de incoerências presentes no relato de Abby Johnson sobre o procedimento que teria mudado sua percepção do aborto.

Dentre elas, a maior é que a clínica de Bryan, no Texas, onde ela trabalhava, não possui qualquer registro em seus arquivos de uma operação que poderia corresponder àquela descrita por Abby Johnson, seja em termos de data, de idade do embrião ou do perfil da paciente.

Captura de tela do site oficial do filme “Unplanned”, feita em 24 de junho de 2019

O que está por trás do filme “Unplanned”?

Longe de ser imparcial ou científico, o filme “Unplanned” foi dirigido por dois cineastas abertamente contra o aborto. Veja abaixo o que eles afirmaram no site oficial do filme: 

“O aborto não é o ‘pecado imperdoável’. O Senhor oferece misericórdia, graça e perdão que leva à cura e à restauração da identidade. Nossa oração é que esta obra seja o catalisador que comece uma jornada pessoal de cura para cada pessoa que foi afetada pelo aborto”, escreveram, em tradução livre, Cary Solomon e Chuck Konzelman, escritores e diretores do filme.

Além disso, o filme é distribuído nos Estados Unidos pela Pure Flix, uma produtora de filmes ligados ao cristianismo evangélico, muitas vezes conhecida como o “Netflix dos cristãos”.

“A Pure Flix é um estúdio cinematográfico cristão que produz, distribui e adquire filmes centrados em Cristo. Nossa VISÃO é influenciar a cultura global para Cristo através da mídia. Nossa MISSÃO é ser a líder mundial na produção e distribuição de mídias religiosas e para a família. Desde o primeiro dia, continuamos a nos esforçar para fazer a diferença em Seu nome”, diz, em tradução livre, o texto presente no site da produtora.

A associação cristã antiaborto “40 Days for Life” também esteve associada ao processo de criação do filme, sendo consultada a cada etapa, de acordo com a própria organização: “Por anos, nós temos trabalhado com os escritores da God’s Not Dead à medida que eles terminavam de escrever, dirigir e produzir a linda história de Abby Johnson”

Captura de tela do site oficial da associação “40 Days for Life”, feita em 24 de junho de 2019

A associação afirma ser “a maior mobilização coordenada pró-vida em escala internacional da história, ajudando as populações de comunidades locais a pôr fim à injustiça do aborto”, e aparece, de fato, com destaque no site oficial do filme

Captura de tela do site oficial do filme “Unplanned”, feita em 29 de junho de 2019

Shawn Carney, CEO e presidente da 40 Days for Life, escreveu no site: “Não há nada mais anormal do que pagar um curador, um médico, para tirar a vida de uma criança. O aborto é devastador…”

Em resumo, o vídeo que alega mostrar a dor sentida por um feto durante um aborto faz parte de um filme de ficção produzido por grupos abertamente contra o procedimento. Segundo ginecologistas consultados pela AFP, um feto de 13 semanas não pode sentir dor.

*Uma vez instalada a extensão InVid nos navegadores Chrome ou Firefox, basta clicar com o botão direito do mouse sobre a imagem e o menu exibido permite pesquisar a foto em diversos motores de busca.

EDIT 11/07: Muda a palavra embrião por feto no primeiro parágrafo.