Não, o deputado Kim Kataguiri não disse que “destruir” Flávio Bolsonaro é o primeiro passo para o MBL chegar à Presidência

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Um vídeo que sugere que o cofundador do Movimento Brasil Livre (MBL) Kim Kataguiri afirmou que “destruir” Flávio Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, seria o primeiro passo para o seu grupo chegar ao poder, circula nas redes sociais desde o último dia 20 de maio. Entretanto, o vídeo foi editado e descontextualizado. Na gravação original, de junho de 2018, Kataguiri se refere ao apoio dado pelo MBL ao então pré-candidato à Presidência da República Flávio Rocha.

“Destruir Bolsonaro. 1º passo é destruir Flávio Bolsonaro”, diz um texto no início do vídeo, compartilhado mais de 1.700 vezes. A frase é seguida por declarações do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e por partes de uma entrevista com o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP).

Em um trecho do vídeo viralizado, Kataguiri diz que o objetivo do Movimento Brasil Livre (MBL) é “administrar o país”. Em seguida, é perguntado se o primeiro passo para tal seria “o Flávio”, ao que responde “pode ser o primeiro passo”. O trecho em questão é repetido três vezes e, associado ao texto que dá início ao vídeo, sugere que Kataguiri se refere ao senador Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidente.

No início do mês de maio, Flávio Bolsonaro teve seu sigilo bancário e fiscal quebrados, um indício de que o Ministério Público apura se o parlamentar comprou e vendeu imóveis para lavar dinheiro quando era deputado estadual. O MP afirmou que o caso está sob “absoluto sigilo”.

A equipe de checagem da AFP encontrou a entrevista completa concedida por Kataguiri e publicada em 12 de junho de 2018 no canal do YouTube do programa “Cara a Tapa”. Nela é possível perceber que o deputado se refere ao empresário Flávio Rocha, na época pré-candidato à Presidência da República apoiado pelo MBL, e não a Flávio Bolsonaro.

A referência de Kataguiri a Flávio Rocha é evidenciada pela conversa que segue, no vídeo original, o trecho destacado na gravação viralizada. Depois que o deputado diz que Flávio pode ser “o primeiro passo” para o MBL chegar à Presidência, o entrevistador pergunta “quando vocês se reuniram aqui para [decidir] quem vocês iam apoiar, quais eram as outras opções além do Flávio que vocês aceitavam pensar na ideia?”, ao que Kataguiri responde listando outros pré-candidatos ao Palácio do Planalto que o grupo considerou endossar.

Em 19 de março de 2018, Kataguiri anunciou em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo que o MBL iria apoiar Rocha na disputa pela Presidência. “Por isso, tenho orgulho de afirmar: Flávio Rocha, único presidenciável que conjuga o combate ao politicamente correto com responsabilidade fiscal e propostas sérias para a segurança pública, é o candidato do Movimento Brasil Livre à Presidência da República”, escreveu o deputado.

O vídeo viralizou depois que o Movimento Brasil Livre divulgou, em 17 de maio de 2019, uma nota afirmando que não participará das manifestações em apoio ao governo Bolsonaro marcadas para o dia 26 deste mês. O MBL alega que os atos têm “pautas antirrepublicanas”, como o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e a invasão do Congresso.

Caracterizado como um movimento de direita, o MBL teve uma participação de destaque nas manifestações que exigiram em 2015 a saída da presidente de esquerda Dilma Rousseff, que no ano seguinte sofreu um impeachment sob a acusação de manipulação das contas públicas.

Em resumo, o vídeo viralizado é uma montagem que tira de contexto as declarações concedidas pelo deputado Kim Kataguiri em uma entrevista. Na verdade, na ocasião, ele não fazia referência a Flávio Bolsonaro, filho do presidente, mas ao então pré-candidato à Presidência da República Flávio Rocha.

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