Não, loja que vendeu camisa satirizando o presidente Jair Bolsonaro não é de Luciano Huck

Um vídeo, no qual uma mulher encontra à venda em uma loja uma camisa que ironiza o atual presidente Jair Bolsonaro (PSL), foi compartilhado milhares de vezes em redes sociais desde o início de outubro como se tivesse sido gravado em um estabelecimento do apresentador de TV Luciano Huck. O nome de Huck não consta, contudo, na lista de sócios da loja onde as imagens foram filmadas. A assessoria de imprensa do apresentador também negou qualquer ligação com a marca.

Captura de tela feita em 14 de outubro de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

“Loja de Luciano Huck repasse ao máximo pra ferrar essa loja desse safado que se passa de bom moço [sic], diz a legenda de uma das publicações, compartilhada mais de 32 mil vezes desde o último dia 11 de outubro. A mesma alegação aparece em diversas outras postagens no Facebook e no Twitter.

Em todas, o texto acompanha um vídeo no qual uma mulher se mostra indignada ao encontrar à venda em uma loja uma camisa que ironiza o presidente Jair Bolsonaro.

A blusa é estampada com uma ilustração de Bolsonaro vestido e maquiado como palhaço, inspirado no famoso personagem Bozo, sob os dizeres “Bozonaro”

Ao final da gravação, que não faz referência a Huck, a mulher filma a fachada da loja, mostrando que se trata de uma unidade da marca Cavalera. 

No entanto, ao contrário do que afirmam as publicações viralizadas, a marca em questão não tem qualquer relação com o apresentador de TV Luciano Huck.

Uma busca no site da Receita Federal mostra que o quadro de sócios e administradores da Cavalera é composto por Alberto Hiar e Joana Hiar Abi Harb.  

Captura de tela feita em 14 de outubro de 2019 mostra quadro de sócios e administradores da marca Cavalera de acordo com site da Receita Federal

Na seção “Sobre Nós” do site da loja também não há menção ao apresentador. De acordo com a descrição da marca, ela foi fundada em 1995 por Alberto Hiar e Igor Cavalera, ex-baterista da banda de heavy metal Sepultura.

Contatada pela equipe de checagem da AFP, o setor de comunicação da marca negou, ainda, que o apresentador seja dono de alguma franquia da loja.

Procurada, a assessoria de imprensa de Huck confirmou à AFP que o apresentador não tem relação com a marca. “Luciano Huck não é e nem nunca foi sócio da Cavalera”, disse ao AFP Checamos.

O vídeo de 2018

Uma busca no Google pelas palavras-chave “Cavalera” e “Bolsonaro” mostra que o vídeo agora viralizado foi gravado originalmente em junho de 2018, quando o atual presidente ainda era pré-candidato. Na época, a Cavalera afirmou, em publicação no Twitter, que o Brasil não estava “totalmente preparado para essa tal liberdade de expressão”.

A gravação voltou a viralizar agora, no momento em que Luciano Huck é mencionado publicamente como um possível candidato às eleições presidenciais de 2022.

Em entrevista concedida à revista Marie Claire no início de outubro, a esposa de Huck e também apresentadora, Angélica, falou abertamente sobre uma possível candidatura do marido. Ainda neste mês, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, disse que a “agenda econômica” de Huck agrada o seu partido, o Democratas (DEM).

Apesar de não ter relação com o vídeo viralizado, o apresentador já esteve envolvido em outras polêmicas relacionadas a uma marca de roupas.

Em 2015, a Use Huck, e-commerce que levava seu nome, foi muito criticada por lançar uma camiseta infantil com os dizeres “Vem ni mim que eu tô facin”. Antes, a marca já tinha ganhado repercussão negativa ao colocar à venda uma camiseta com a estampa “Somos Todos Macacos”, sendo acusada de tentar lucrar com o caso de racismo envolvendo o jogador de futebol Daniel Alves. Após as controvérsias, o apresentador decidiu se desligar da marca.

Em resumo, é falso que um vídeo no qual uma mulher encontra à venda em uma loja uma camiseta que satiriza o presidente Jair Bolsonaro tenha sido gravado em um estabelecimento do apresentador de TV Luciano Huck. O nome de Huck não consta no quadro de sócios e administradores da marca e a assessoria do apresentador negou que ele tenha relação com a loja.

AFP Brasil