Não há registro de que a Ford tenha encerrado globalmente a produção de veículos de passageiros

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Publicações compartilhadas mais de mil vezes desde 11 de janeiro nas redes sociais afirmam que o anúncio da fabricante automobilística Ford de sair do Brasil teria feito parte de uma “decisão global” tomada há dois anos de encerrar a produção de veículos de passageiros. Mas não há registro dessa estratégia de produção e foi informado que a empresa aumentaria os investimentos na fabricação de automóveis em países vizinhos, como Argentina e Uruguai. 

“NÃO É NO BRASIL! A decisão da Ford, tomada há dois anos, foi parar de produzir carros de passageiros no MUNDO!!!! Eles NÃO ganham dinheiro com Ka, Fiesta, Focus, etc. Desistiram de competir com asiáticos e europeus. A Ford vai produzir apenas caminhonetes e o Mustang. NO MUNDO!!!”, afirma uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3), no Twitter e no Instagram logo após o anúncio feito pela empresa norte-americana de que encerraria sua produção no Brasil

Captura de tela feita em 19 de janeiro de 2021 de publicação no Facebook

Algumas das publicações são acompanhadas por uma captura de tela de uma notícia da NBC News, de 26 de abril de 2018, com o título “Ford encerrará toda produção de veículos de passageiros, exceto a do Mustang” (tradução do inglês). A matéria, entretanto, traz informações sobre a produção nos Estados Unidos, sem mencionar a produção global da companhia. 
 

Decisão global?

No último dia 11 de janeiro, a Ford comunicou o fechamento de suas três fábricas no Brasil, em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE). Em seu comunicado, a automotora anunciou “uma reestruturação de suas operações na região que permitirá ter um modelo de negócios ágil e sustentável no Brasil e América do Sul” e mencionou entraves para continuar atuando no país: “A pandemia global do Covid-19 ampliou os desafios do negócio, com persistente capacidade ociosa da indústria e redução das vendas na América do Sul, especialmente no Brasil”

Trabalhadores da montadora norte-americana Ford participam de um protesto em frente à fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, em 12 de janeiro de 2021. (AFP / Rafael Martins)

No comunicado sobre o fechamento das fábricas, titulado “Ford Avança na Reestruturação da América do Sul”, não há qualquer menção sobre o encerramento da produção de veículos para passageiros na região ou no mundo. 

O AFP Checamos contactou a Ford para obter mais detalhes sobre a saída da empresa do Brasil, mas a assessoria não se pronunciou.  

Em uma busca no Google, também não é possível encontrar nenhum registro de a Ford tenha informado sobre o fim da fabricação de veículos de passageiros globalmente ou no Brasil. Nada nesse sentido foi encontrado no site da empresa
 

Apesar de deixar de produzir carros no Brasil, a Ford anunciou um investimento de 580 milhões de dólares na Argentina a fim de ampliar a produção de veículos que serão, inclusive, vendidos ao Brasil. Em novembro do ano passado, o governo uruguaio anunciou o retorno da montadora ao Uruguai, com um investimento de 50 milhões

No comunicado, a companhia diz que continuará atendendo a região com seu portfólio global de veículos e que planeja acelerar o lançamento de diversos novos modelos conectados e eletrificados. 

A montadora mencionou quatro modelos no comunicado: “Reforçamos que além da confirmação da produção na nova geração da Ford Ranger, do lançamento da inédita família Bronco, da nova geração do Mustang Mach 1 e do utilitário Transit, a Ford planeja anunciar em breve novos modelos para o Brasil”

Essa informação contraria, portanto, a alegação das publicações de que a Ford vai produzir apenas caminhonetes e o Mustang”, já que desses, apenas a picape Ranger é uma ‘caminhonete’. O Bronco é um SUV e o Transit é um utilitário. Embora popularmente possam ser confundidos, os veículos SUV e os utilitários se diferenciam das caminhonetes sobretudo por terem a carroceria fechada. 

Com o fechamento das fábricas no Brasil, saem de linha também os modelos Ka e Ecosport, que eram produzidos em Camaçari (BA). Os veículos sedãs continuam, contudo, sendo produzidos nas fábricas da Europa

Após o comunicado feito pela Ford no Brasil, o Ministério da Economia lamentou em nota a decisão, ressaltando que ela “destoa da forte recuperação observada na maioria dos setores da indústria no país”. O presidente Jair Bolsonaro afirmou que a empresa deixou o país porque queria subsídios para sua permanência. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) ressaltou que o setor não defende novos subsídios, e sim competitividade.

Europeus e asiáticos

As publicações também afirmam que a Ford estaria desistindo de competir com outros fabricantes de veículos europeus e asiáticos. Para o coordenador de Cursos Automotivos da Fundação Getúlio Vargas, Antônio Jorge Martins, ouvido pelo Comprova, do qual a AFP faz parte, isso não procede. “O que motivou e está motivando essa reestruturação mundial da Ford, não resta dúvida, é uma decisão estratégica no sentido de fazer com que a empresa comece não somente a produzir em todos os locais onde estará presente, mas ofertar produtos com maior conteúdo tecnológico”, avalia. 

“Na medida em que o setor como um todo está exigindo investimento pesado, principalmente em termos de veículos autônomos e veículos elétricos, não há como todas as empresas caminharem em todas as direções. Isso fez com que a Ford escolhesse um nicho. A reestruturação ser motivada por uma decisão de deixar de competir com Ásia ou Europa, na minha opinião, não faz sentido”, acrescentou.

Em resumo, não se pode afirmar que a decisão da Ford em sair do Brasil faça parte de uma estratégia global da empresa deixar de produzir veículos de passageiros. Em comunicado, a empresa explicitou que fechará suas fábricas no país pela capacidade ociosa da indústria e pela queda de vendas no mercado brasileiro. Apesar de ter saído do Brasil, a Ford manterá sua produção nos países vizinhos Uruguai e Argentina. 

Esse texto faz parte do Projeto Comprova. Participaram jornalistas da GZH, do Coletivo Negro Unipampa São Borja e do Diário do Nordeste. O material foi adaptado pelo AFP Checamos.

EDIT 26/01: acrescenta menção à parceria com o Projeto Comprova
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