Não há registro de que Eike admitiu subornos a ex-presidentes e ministros do STF citados nas redes

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Publicações compartilhadas nas redes sociais afirmam que o empresário Eike Batista confessou ter pago propina aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, assim como aos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer. A alegação circula desde 2021 e voltou a ser disseminada centenas de vezes a partir de 3 de abril de 2022. No entanto, não foi encontrado qualquer registro da declaração, que foi negada pelo escritório responsável pela defesa do empresário.

“Eike Batista confessou: “Eu paguei propina pro ministro Fachin, pra Rosa Weber, pro Gilmar Mendes, pro Tófoli, pro Renan, pro Rodrigo Maia, pro Lula, pra Dilma, pra Gleisi Hoffmann, pro Temer”, diz o texto sobreposto a uma foto do empresário compartilhada no Twitter (1, 2, 3) e Facebook

Uma outra publicação diz ainda:Só para ressaltar como historicamente estamos sendo puxados pela coleira do STF, o que adianta denúncias e delações se nada pode ser feito. E assim a vida prossegue mesmo com fatos comprobatórios dos denunciante Pallocci, Eike Batista, e outros…”.

O conteúdo já havia sido compartilhado mais de 25 mil vezes em 2021 e voltou a circular em meio ao noticiário sobre a condenação do deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ).

Preso em fevereiro de 2021 após divulgar um vídeo com ataques verbais a ministros do STF, Silveira foi condenado pela corte em abril de 2022 a oito anos e nove meses de prisão pelos “crimes de ameaça ao Estado Democrático de Direito e coação no curso do processo”.

Captura de tela feita em 25 de abril de 2022 de uma publicação no Twitter

No entanto, uma busca no Google pelas palavras-chave “confissão”, “delação” ou “Eike Batista” não leva a nenhum registro de que o empresário tenha dado a declaração viralizada a respeito de ministros do STF e outros políticos. Pelo contrário, a pesquisa mostra diversos textos desmentindo o conteúdo.

Origem da desinformação

Em agosto de 2021, a suposta declaração de Eike foi citada em um artigo publicado no site Diário do Poder. 

O texto assegurava que a fala foi transcrita pelo "jornal Inconfidência" em 17 de agosto de 2021. O AFP Checamos não conseguiu localizar, no entanto, essa suposta publicação.

Uma busca pelo nome citado levou à página de um jornal de Belo Horizonte, cuja última edição foi veiculada em abril de 2016, segundo seu próprio site. A pesquisa localizou também uma rádio chamada Inconfidência, mas sem nenhuma publicação sobre a suposta fala de Eike.

A equipe de checagem da AFP questionou o site Diário do Poder sobre a fonte da informação, mas não obteve retorno até a publicação deste artigo.

“Alegações totalmente falsas”

Procurado pelo AFP Checamos, o escritório de advocacia Braga e Fernandes, responsável pela defesa de Eike Batista, negou em 25 de agosto de 2021 que o empresário tenha afirmado ter pago propina aos ministros do STF e políticos citados nas redes sociais.

“Nas últimas 24 horas, Eike Batista tomou conhecimento de que seu nome vem sendo utilizado em ataques políticos direcionados ao Supremo Tribunal Federal e seus ministros, tendo atribuídas a si falas e alegações totalmente falsas -  declarações essas que nunca fez e com as quais não concorda”, diz a nota.

“O órgão máximo do Poder Judiciário é um importante pilar da democracia, sem o qual não viveríamos num Estado Democrático de Direito”, acrescenta o texto.

Em novembro do ano passado, a ministra Rosa Weber homologou o acordo de delação premiada fechado pelo empresário Eike Batista com a Procuradoria-Geral da República. A delação, baseada em depoimentos e documentos apresentados por Batista como provas, está sob sigilo e tramita no STF porque ele mencionou pessoas que têm foro privilegiado na mais alta corte do país.

Meses antes da homologação, em fevereiro, foi noticiado que Batista admitiu ter pago 20 milhões de reais em propina ao deputado federal Aécio Neves (PSDB). Segundo o empresário, Neves teria favorecido suas empresas junto ao poder público, especialmente no estado de Minas Gerais. Entre os benefícios, o empresário apontou a concessão de licenças ambientais. O deputado mineiro negou as acusações. 

Em julho de 2017, Batista - que em 2012 havia sido considerado pela revista Forbes o sétimo homem mais rico do mundo - foi condenado a 30 anos de prisão por corrupção ativa e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato. Ele foi acusado de pagar 16,5 milhões de dólares (na época, o equivalente a 52 milhões de reais) ao ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral em troca de contratos com o governo estadual. O empresário, que nega ter dado a propina, cumpre a sentença em prisão domiciliar. 

Batista fez fortuna na exploração de mineração, petróleo, gás, logística, energia, indústria naval e carvão mineral. Além da sentença pela Lava Jato, ele foi condenado outras três vezes, a última em fevereiro de 2021, por crimes contra o mercado financeiro. 

EDIT 26/04/2022: Acrescenta parágrafos sobre nova viralização 

EDIT 25/08/2021: Acrescenta posicionamento da defesa de Eike Batista e informações sobre nova viralização.