Não, este vídeo não mostra uma professora tentando passar batom em um aluno

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Um vídeo alegando mostrar professoras forçando um aluno a usar batom se fez viral na América Latina e no Canadá. As adultas no vídeo são, sim, professoras, mas na verdade estão tentando dar uma pílula de Ômega-3 à criança. O vídeo foi originalmente postado em junho de 2015 no Brasil, e resultou na abertura de um processo judicial por parte dos pais do menino um mês depois.

A história tinha todos os elementos para a indignação do público. Duas mulheres aparecem no vídeo tentando colocar algo à força na boca de uma criança. O menino chora e tenta resistir. De acordo com a descrição das postagens, a cena testemunhada pelos internautas se trata de doutrinação LGBT nas escolas. O aluno estaria lutando contra a tentativa de pintar sua boca com batom.

O vídeo apareceu na internet em junho de 2015 e foi rapidamente compartilhado e visto milhões de vezes, em português, espanhol e inglês. Recentemente, chegou à América do Norte através do Reddit e do Facebook.

A cena do vídeo chegou a ser tratada por um tribunal brasileiro, por constituir maus-tratos, mas não pelas razões descritas nas postagens.

O episódio ocorreu no dia 19 de junho de 2015 no centro educacional Ipê em Águas Claras, cerca de 16 km da capital Brasília. De acordo com a sentença judicial relacionada ao incidente, as duas mulheres que aparecem no vídeo eram professoras e tentaram forçar a criança a ingerir Ômega-3. O suplemento traz benefícios ao coração, segundo especialistas.

Bruna da Silva Andrade, também docente na escola, foi quem gravou a cena e postou nas redes sociais. De acordo com ela, que foi testemunha no processo, as professoras seguraram o menino pelo braço com força.

De acordo com a sentença da Terceira Vara Cível de Taguatinga, Da Silva “presenciou a professora Daniele amassando uma cápsula de ômega 3 em sua mão, com forte cheiro de peixe, dizendo ao autor que aquilo era catarro, enquanto esfregava a mão em seu rosto”. A razão pela qual as professoras quiseram dar Ômega-3 à criança não está clara, tampouco o motivo de terem dito que era catarro.

Pelo fato do incidente não ter sido um caso isolado, o próprio colégio tomou o lado dos pais do aluno no processo. A instituição foi obrigada a pagar 30.000 reais à vítima, representada por sua mãe, e declarou à AFP, por telefone, que “as professoras envolvidas no caso já não têm nenhuma conexão com a escola”.

As palavras ditas no vídeo são quase ininteligíveis e o que foi dado à criança não é mostrado de maneira clara nas imagens. Estas características tornaram fácil descontextualizar o vídeo, alegando que o mesmo era uma evidência de doutrinação LGBT nas escolas.