Captura de tela de um video disseminando a informação falsa, 11 de setembro de 2018 (Youtube / AFP)

Não, estas imagens não mostram uma mulher passando uma faca para atentar contra Bolsonaro

Diversas teorias circularam nas redes sociais depois do atentado sofrido pelo candidato de extrema direita Jair Bolsonaro no último dia 6 de setembro. Uma delas alega que a faca utilizada pelo autor do ataque, Adélio Bispo de Oliveira, foi passada de mão em mão até que ele mesmo pudesse agredir o presidenciável. Esta versão é falsa.

Candidato de extrema-direita às eleições brasileiras Jair Bolsonaro depois de ser esfaqueado no estômago durante um ato de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais, no sudeste do Brasil, 6 de setembro de 2018 (AFP / Raysa Leite)

Naquele dia, Bolsonaro realizava um ato de campanha na cidade mineira. No momento, era carregado nos ombros por simpatizantes.


Falsas alegações sobre o vídeo

Um vídeo publicado em um canal no YouTube, por exemplo, alega que uma mulher de óculos escuros, que estava na multidão no centro de Juiz de Fora (MG), na ocasião em que Bolsonaro foi atacado, passou a faca para um homem de camiseta branca que, em seguida, passou o objeto cortante para Adélio de Oliveira.

Uma das publicações defendendo esta versão é descrita como o “momento que uma mulher passa a faca para um homem até chegar em Adélio!”. Checamos as imagens e concluímos que esta alegação é falsa: elas não mostram nenhuma faca sendo transmitida.

Montagem dos frames de um video no Youtube. Momento em que supostamente uma mulher passaria uma faca a um homem. 11 de setembro de 2018 (Youtube / AFP)

Falsas acusadas

Ao menos duas mulheres foram acusadas pelos internautas, com base nas imagens do vídeo, de terem participado no ataque contra o candidato à presidência pelo Partido Social Liberal (PSL). Um tuíte do candidato a deputado federal pelo mesmo partido de Bolsonaro, Alexandre Frota, diz: “Atenção Brasil estamos atrás dessa mulher que junto com os bandidos elaborou e participou do atentado ao Jair. ligue 190”.

Captura de tela de um tweet do candidato a deputado federal Alexandre Frota (PLS) disseminando a falsa informação, 11 de setembro de 2018 (Twitter / AFP)

A mulher foi supostamente identificada por usuários de redes sociais. Uma das teorias acusava Maria Clara Ribeiro Tarabal, que seria assessora do deputado federal Miguel Corrêa da Silva Júnior, do Partido dos Trabalhadores (PT). Outra versão afirma que a mulher que teria ajudado Adélio de Oliveira a cometer o atentado seria Aryane Campos.

Pelo menos duas mulheres com nome de Aryane Campos foram ameaçadas de morte na internet por serem confundidas com a suposta co-autora do atentado contra Bolsonaro.

"Acharam meu número, começaram a me ligar e mandar mensagem. Falavam que viriam atrás de mim, que iriam me achar e que não adiantava eu ficar escondida. Era gente do País inteiro, notei pelo DDD", declarou Aryane Campos, de 18 anos, ao jornal Estado de São Paulo.

A assessoria de comunicação do deputado Miguel Corrêa negou que qualquer pessoa com o nome das acusadas trabalhe para o político. O nome delas tampouco foi encontrado na base de dados de remuneração de servidores da Câmara dos Deputados.

Na última segunda-feira, a Agência Brasileira de Comunicação (EBC) publicou que “uma jovem de 18 anos, moradora de Juiz de Fora (MG), denunciou à Polícia Federal (PF) e à polícia de Minas Gerais estar recebendo ameaças de morte após ser acusada por internautas de participar do ataque contra o candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro”. Segundo a mãe da jovem, “a filha foi confundida com uma mulher homônima que alguns internautas acusam de ter entregue a Adélio Bispo de Oliveira a faca com que o desempregado feriu o político.”

Captura de tela de uma publicação no Facebook disseminando informação falsa, 11 de setembro de 2018 (Facebook / AFP)

No dia 10 de setembro, o Estado de São Paulo publicou que, baseado em fontes com acesso à investigação, a PF descarta a participação de Aryane Campos no atentado sofrido por Jair Bolsonaro na última quinta-feira. A PF declarou à EBC que “nem a jovem, nem qualquer outra pessoa cujo nome está sendo divulgado na internet são investigadas”.

Jair Bolsonaro lidera as pesquisas para o primeiro turno das eleições presidenciais de 7 de outubro com 24% das intenções de voto, muito à frente do segundo colocado, Ciro Gomes, 13%, segundo o Instituto Datafolha. Também é o candidato com o maior índice de rejeição, 43%.

Esta investigação foi realizada com apoio do Projeto Comprova. Participaram jornalistas da AFP, Folha de São Paulo e Poder360.

AFP Brasil