Não, esta fotografia não mostra a execução de 26 políticos corruptos na China

Uma imagem que mostra uma fileira de oficiais segurando o pescoço de vários presos foi compartilhada milhares de vezes nas redes sociais, afirmando se tratar dos momentos anteriores à execução de 26 políticos chineses acusados de corrupção. Entretanto, a fotografia - que pertence à AFP - foi tirada em 2004 durante o anúncio de outra sentença a vários detidos. Onze deles realmente foram executados, mas nenhum era político.

“A China executa 26 políticos corruptos! Imagina se isso vira lei no Brasil...”, diz a legenda que acompanha a imagem em uma publicação de 10 de maio de 2018 e que foi compartilhada mais de 8,9 mil vezes. Postagens idênticas circularam no Facebook e no Twitter em espanhol, inglês, francês, polonês, grego e armênio.

Captura de tela feita em 13 de junho de 2019 mostra a postagem viralizada no Facebook

Recentemente, em maio de 2019, a imagem circulou novamente no Facebook e Twitter em tagalo, idioma falado nas Filipinas. A publicação foi compartilhada especialmente em grupos de apoio ao presidente filipino, Rodrigo Duterte, que querem a restauração da pena de morte no país.

O resultado de uma busca reversa pela fotografia* levou ao banco de imagens da agência Getty Images. A foto é da AFP e pode ser consultada de forma pública neste link.

A imagem foi feita em 7 de abril de 2004 em Wenzhou, cidade do leste da China, quando um grupo de presos recebia sua sentença. Posteriormente, 11 deles foram executados.

Estas 11 pessoas estiveram envolvidas em crimes como assalto à mão armada, homicídio e roubo agravado, reportou a AFP.

Outras fotografias do mesmo caso podem ser encontradas no banco de imagens da AFP (1, 2 e 3).

Anteriormente, Snopes, Ellinika Hoaxes e The Print escreveram sobre a fotografia da AFP que, em 2018, viralizou com a afirmação errônea de “26 políticos corruptos executados na China”.

China e a pena de morte

“China aprovou lei que dá pena de morte para políticos corruptos”, dizem alguns artigos com conteúdo similar. Um deles data do final de maio deste ano, mas o outro não tem data. Os dois têm o texto igual, que se assemelha a um escrito em espanhol em 2016, e que viralizou em 2019 com mais de 687 mil interações em páginas de diversos setores políticos de México, Colômbia, Itália, Espanha.

O texto explica que o Tribunal Popular Supremo da China e a Procuradoria do Estado instauraram a pena de morte para líderes corruptos que desviarem, ou receberem propina em um valor superior a 463 mil dólares. Esta informação efetivamente coincide com uma nota da AFP (em inglês) de 18 de abril de 2016.

Citando a agência chinesa de notícias Xinhua, a AFP informou que a Suprema Corte e o Ministério Público da China indicaram que a pena capital seria uma opção para os tribunais, mas não uma medida obrigatória.

Até agora, as sentenças mais severas haviam sido a morte com indulto por dois anos, que substitui a condenação à pena de morte por prisão perpétua.

Um relatório da Anistia Internacional indica que as informações sobre as execuções na China “são segredo de Estado” e considera que “lá as execuções são contadas aos milhares”.

Para ilustrar o texto, as matérias usam uma fotografia do julgamento dos magnatas da mineração Liu Han e Liu Wei, que eram acusados de assassinato e de administrar uma organização no estilo da máfia. Uma matéria feita pela CNN em 2015 mostra um outro momento do mesmo processo, como pode ser visto pela roupa usada por Liu Han.

Montagem feita em 13 de junho de 2019 mostra, à esquerda, a foto usada no artigo viralizado e, à direita, a fotografia do site da CNN, nas quais Liu Han é visto com a mesma roupa

Em resumo, a primeira fotografia, que mostra momentos pouco antes da suposta execução de 26 políticos corruptos na China, pertence à AFP e foi tirada em 2004 durante uma sentença a várias pessoas. Destas, 11 foram executadas, e nenhuma delas era do meio político. No segundo caso, a informação do artigo de 2016 sobre o mesmo tema é verdadeira. Voltou a circular, porém, em maio de 2019, como algo atual, quando já tem três anos. Além disso, a fotografia que o acompanha não corresponde ao julgamento de pena capital de um político corrupto, mas ao de um magnata do setor da mineração, ocorrido em 2015.

*Para realizar este tipo de busca, clica-se com o botão direito sobre a imagem. Em sequência,
aparece a opção de “pesquisa no Google”. Também é possível instalar a extensão gratuita do
InVid nos navegadores Chrome e Firefox. Ao clicar com o botão direito sobre a imagem, aparece
um menu que permite fazer uma pesquisa em vários motores de busca.