Na verdade, as imagens mostram a caça de baleias-piloto em uma região da Dinamarca

Desde que a Noruega anunciou, no último dia 15 de agosto, o bloqueio de um repasse milionário ao Fundo Amazônia, programa destinado à preservação da Floresta Amazônica no Brasil, duas fotos que supostamente mostram a caça de baleias em território norueguês viralizaram nas redes sociais. O presidente Jair Bolsonaro também publicou, em seu Twitter, um vídeo que retrataria a atividade nesse país. Apesar de a caça de baleias ser autorizada na Noruega, estas imagens mostram um tipo diferente de caça, realizado nas Ilhas Faroé, região semiautônoma da Dinamarca.

As publicações viralizaram em reação à decisão da Noruega de bloquear o repasse de R$ 133 milhões ao Fundo Amazônia, acusando o Brasil de não querer “mais interromper o desmatamento”.

O AFP Checamos investigou a origem das imagens viralizadas.

1. Baía manchada de sangue

Captura de tela feita em 19 de agosto de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

Uma das imagens mostra águas manchadas de sangue e diversas baleias mortas rodeadas por pessoas. “Quando algum imbecil disser que a Noruega está preocupada com o meio ambiente, mostre essa foto”, diz a legenda da imagem, que foi compartilhada mais de 4.400 vezes desde 16 de agosto. No entanto, uma busca reversa* indica que a imagem não foi feita no país.

A pesquisa encontrou a mesma imagem em uma reportagem da BBC sobre a caça de baleias-piloto nas Ilhas Faroé, região semiautônoma da Dinamarca. No artigo, as fotos são creditadas à agência de notícias britânica Triangle News.

Procurada por e-mail, a agência confirmou ao AFP Checamos a identificação das fotos, que disse terem sido feitas em 30 de julho de 2018.

Segundo a reportagem da BBC, a imagem foi feita na baía de Sandavágu. Uma busca pela localização no Google Maps confirma que a foto foi tirada nesse lugar.

2. Homem caça com arpão

Captura de tela feita em 19 de agosto de 2019 mostra a publicação viralizada no Facebook

“NORUEGA MATA MAIS DE MIL BALEIAS INDEFESAS POR ANO”, diz a legenda de uma outra fotografia, que soma mais de 9.500 compartilhamentos (1, 2, 3) desde 15 de agosto de 2019.

Também por meio do método de busca reversa* foi possível encontrar a fotografia em reportagens dos veículos Business Insider e Newsweek. Com crédito ao fotógrafo Andrija Ilic, para a agência de notícias Reuters, o Checamos encontrou a foto em sua localidade e data originais.

Segundo a descrição da fotografia no site da agência, a imagem também foi feita nas Ilhas Faroé, e mostra habitantes capturando e abatendo baleias-piloto durante a “tradicional ‘Grindadrap’ (caça de baleias no arquipélago) perto de Sandur, em 5 de junho de 2012”.

3. Vídeo compartilhado por Bolsonaro

Captura de tela feita em 20 de agosto de 2019 mostra publicação do presidente Jair Bolsonaro no Twitter

O presidente Jair Bolsonaro também postou em 18 de agosto um vídeo da atividade no Twitter, atribuindo as imagens à Noruega. Desde então, o vídeo foi visualizado mais de 2 milhões de vezes.

As imagens, no entanto, também são das Ilhas Faroé. Em resposta ao tuíte de Bolsonaro, a organização de preservação marinha Sea Shepherd UK afirmou que o vídeo foi filmado por sua equipe na região dinamarquesa.

A gravação não editada do momento foi publicada em 18 de agosto de 2018 pela organização no YouTube. Segundo a Sea Shepherd, as imagens também foram feitas na baía de Sandavágu em 30 de julho de 2018, e não na Noruega em 29 de maio deste ano, como sugere o vídeo publicado pelo presidente.

Diferenças

Um indício de que as imagens viralizadas não foram feitas na Noruega, mas nas Ilhas Faroé, é a diferença entre as caças realizadas nos dois lugares.

A atividade retratada corresponde à caça conhecida como “Grindadrap”, realizada tradicionalmente na Dinamarca desde 1584. A prática visa principalmente baleias-piloto, uma espécie do grupo de golfinhos, popularmente chamada de baleia devido a seu tamanho. 

Segundo explicação publicada em site do governo regional, a caça é realizada ao longo do ano para fornecer alimento à comunidade local. O procedimento começa quando alguém identifica um grupo de baleias-piloto. A partir de então, barcos formam um semicírculo atrás dos animais, conduzindo-os até a baía mais adequada, onde ficam encalhados.

Quando estão imobilizadas, as baleias-piloto são mortas, normalmente com o uso de ganchos de metal com pontas cegas, segundo relato da organização sem fins lucrativos Whale and Dolphin Conservation. Qualquer pessoa com 16 anos ou mais que tenha participado de um curso sobre o procedimento pode matar o animal.

A execução resulta nas águas manchadas de sangue vistas em todas as imagens viralizadas. “A caça de baleias-piloto nas Ilhas Faroé é, por sua própria natureza, uma cena dramática e sangrenta. Grupos inteiros de baleias são mortos na costa... Isso, naturalmente, resulta em muito sangue na água”, diz texto publicado em site do governo. 

Visão geral da caça de baleias em Torshavn, nas Ilhas Faroé, em 29 de maio de 2019

Este procedimento é muito diferente do adotado na Noruega, onde as baleias são caçadas em mar aberto, por embarcações de entre 40 e 80 pés, com uma tripulação de quatro a oito pessoas.

O método usado na caça de baleias na Noruega consiste em atingir os animais com o  chamado “Whalegrenade-99”, um tipo de arpão que contém uma granada explosiva, disparado por um canhão a partir dos barcos baleeiros. O arpão que é lançado penetra a estrutura da baleia e só depois a granada é detonada. A caça do animal no país foi registrada em imagens pela ONG Greenpeace.

Diferentemente das Ilhas Faroé, a baleia mais caçada na Noruega é a minke, cuja coloração é preta ou cinza escura na parte de cima, e branca na parte de baixo, com faixas brancas em suas barbatanas.

De acordo com o site da organização intergovernamental North Atlantic Marine Mammal Commission (NAMMCO), a baleia-minke é a espécie mais abundante, com mais de 180.000 exemplares no Atlântico Norte.

Noruega mata mais de mil baleias por ano?

Outra imprecisão vista nas publicações é a afirmação de que a Noruega “mata mais de mil baleias por ano”. Na realidade, segundo o levantamento da International Whaling Commission (IWC), organismo internacional que regula a atividade baleeira, em 2017 foram caçadas 432 baleias-minke de uma cota de 999.

Em 2018, por sua vez, a cota era de 1.278 baleias e 434 foram caçadas, de acordo com a Whale and Dolphin Conservation, instituição global dedicada à proteção de baleias e golfinhos. Para 2019, a cota de 1.278 baleias foi mantida, mas ainda não há dados de quantas foram caçadas, já que a temporada ainda não terminou.

Esta cota é estabelecida anualmente pelo governo da Noruega, já que o país se opõe à moratória global instituída em 1986 pela IWC que proíbe a caça comercial de baleias para as nações signatárias.

De acordo com o site do governo da Noruega, a caça de baleias - cuja temporada vai de abril a agosto/setembro - faz parte de suas tradições e ocorre na zona econômica norueguesa, na área perto de Svalbard, Jan Mayen e em águas internacionais.

Atualmente, a carne de baleia é pouco consumida na Noruega. Segundo um estudo publicado em 2011 pelo Economics for the Environment Consultancy, menos de 5% dos entrevistados consome carne de baleia frequentemente. Assim, o destino comercial da caça é para rações de animais e exportação.

Em resumo, a caça de baleias é autorizada na Noruega, mas as imagens viralizadas não retratam esta atividade, e sim o método tradicional de caça adotado nas Ilhas Faroé, região semiautônoma da Dinamarca. Além disso, a afirmação de que o país mata mais de mil baleias por ano é enganosa, de acordo com dados divulgados pela Comissão Baleeira Internacional.

*Uma vez instalada a extensão InVid nos navegadores Chrome ou Firefox, basta clicar com o botão direito do mouse sobre a imagem e o menu exibido permite pesquisar a foto em diversos motores de busca.

AFP Brasil