Ministério da Defesa desmente afirmações de que o Exército construiu 2 mil leitos em 48 horas

Publicações compartilhadas mais de 39,5 mil vezes nas redes sociais desde o último dia 29 de março afirmam que o Exército brasileiro construiu 2 mil leitos em apenas 48 horas, enquanto a China construiu 1.000 leitos em 10 dias. O Ministério da Defesa informou, contudo, que a alegação não procede, apesar das Forças Armadas estarem atuando, de fato, na montagem de hospitais de campanha.

“// BRASIL E O COMPLEXO DE VIRA-LATAS // A China construiu 1.000 leitos em 10 dias, total veneração aos pais do Vírus. O Exército Brasileiro construiu 2.000 leitos em 48 horas e ninguém fala absolutamente nada. Nem o povo, tampouco a mídia”, dizem as publicações, compartilhadas mais de 39,5 mil vezes no Facebook (1, 2, 3, 4), e replicadas no Twitter (1, 2) e Instagram desde o final de março.

Captura de tela feita em 1º de abril de 2020 no Facebook

O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos - RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, compartilhou uma afirmação semelhante em sua conta no Twitter (1).

As Forças Armadas brasileiras têm, de fato, atuado no combate à pandemia de coronavírus. De acordo com uma publicação no site do Ministério da Defesa com data de 1º de abril, a chamada “Operação COVID-19” está em seu 10º dia de ação e conta com mais de 22 mil militares.

Contudo, diferentemente do que afirmam as publicações viralizadas, não foi registrado até este momento nenhuma construção de 2.000 leitos em apenas 24 horas.

Em e-mail ao AFP Checamos, o Ministério da Defesa indicou que “a informação não procede” e que as Forças Armadas estão trabalhando “no apoio para a montagem de hospitais de campanha”.

Nos sites do Governo Federal e do próprio Ministério da Defesa, há matérias a respeito da instalação em Boa Vista, Roraima, de uma “área de proteção e cuidados” para atender,  em princípio, 80 brasileiros e venezuelanos com suspeita ou confirmação de coronavírus, e cuja ação faz parte da “Operação Acolhida”.

Em confirmação por telefone ao AFP Checamos, o tenente Edwaldo Costa, da assessoria de comunicação do Ministério da Defesa, explicou que, com a participação do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), este local de proteção e cuidados será ampliado para 1.200 leitos hospitalares e 1.000 leitos para pessoas infectadas ou com suspeita de infecção, mas ainda não está em funcionamento, pois os leitos estão sendo providenciados.

Uma nota enviada pela Seção de Comunicação Social da Operação Acolhida indica, igualmente, que a “área de proteção e cuidados” irá conter inicialmente 80 leitos, mas que esta “poderá ser expandida, gradativamente, até cerca de 1.200 leitos, de acordo com a alocação de meios por parte do Governo Estadual”.

Procurado para confirmar a informação, o Exército não respondeu até o fechamento desta matéria.

Publicações que exaltam o Exército tiram fotos de contexto

Várias postagens no Facebook que elogiam a construção de 2 mil leitos pelo Exército brasileiro utilizam duas fotos fora de contexto.

Captura de tela feita em 1º de abril de 2020 no Facebook

A imagem de cima mostra a montagem de uma estrutura para atender pacientes com problemas respiratórios no Pavilhão de Eventos São Sebastião Mártir, em Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul. A foto foi publicada no site de notícias local Portal RVA em 24 de março de 2020, cujo texto informa que ali serão instalados 30 leitos.

Nesta segunda matéria do Portal RVA é possível ver outras fotos da estrutura de atendimento. Esta reportagem de outro site local informa que os leitos foram emprestados pelo Exército ao município.

A imagem de baixo, por sua vez, é do Hospital de Reabilitação Ana Carolina Moura Xavier, em Curitiba. A foto foi tirada em 1º de outubro de 2019, data de inauguração de 10 novos leitos da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pelo governo do Paraná. O espaço da UTI existia desde 2008, mas estava sem equipamentos.

China construiu 13 mil leitos

De acordo com a Comissão Nacional de Saúde da República Popular da China, 16 centros médicos temporários foram construídos em ginásios e centros de exposição da cidade de Wuhan, epicentro da pandemia na China.

As informações sobre os hospitais foram divulgadas no China Daily, jornal do Partido Comunista Chinês. Treze mil leitos foram disponibilizados nestes locais para o tratamento de pessoas que apresentassem sintomas leves da COVID-19 que apresentavam sintomas leves.

Os primeiros três hospitais de campanha tinham 4 mil leitos e foram feitos em 29 horas. Ainda segundo as autoridades chinesas, o tempo médio para a construção dos hospitais de campanha foi de um dia. Os centro médicos funcionaram durante o ápice da epidemia, por um período de 35 dias.

A AFP informou em 27 de janeiro deste ano que o hospital construído em Wuhan em apenas 10 dias iria ter 1.000 leitos para tratamento de pacientes do coronavírus.

Até este 3 de abril, o coronavírus já havia deixado mais de 50 mil mortos em todo o mundo e mais de um milhão de infectados. Metade da humanidade permanece em confinamento.

Em resumo, é falso que o Exército tenha construído 2 mil leitos em apenas 48 horas em resposta à pandemia de coronavírus. O Ministério da Defesa indicou que esta informação não procede, mas que as Forças Armadas estão atuando em várias frentes na “Operação COVID-19”.

Esta investigação faz parte do Projeto Comprova. Participaram jornalistas da AFP, do SBT e do Estadão.

AFP Brasil