Protesto com tatuagem no ânus foi contra o ex-presidente dos EUA Donald Trump, não Bolsonaro

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“Homem faz tatuagem no ânus em protesto contra Bolsonaro”, afirmam publicações compartilhadas mais de 5 mil vezes em redes sociais ao menos desde o último dia 15 de setembro, junto a uma imagem do suposto processo. Isso é falso. Embora a foto realmente mostre um artista que fez uma tatuagem na região anal como forma de protesto político, o ato foi contra o então presidente dos Estados Unidos Donald Trump, em março de 2017, antes mesmo de Bolsonaro ser candidato à Presidência.

“Meu corpo minhas regras e muito amor enrustido pelo Presidente Bolsonaro”, diz uma das publicações que também somam mais de 150 mil interações no Facebook (1, 2, 3), Twitter (1, 2, 3) e Instagram.

A alegação - igualmente difundida em artigos - foi amplamente compartilhada por partidários do presidente, como seu filho e vereador, Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), e os deputados estaduais Bruno Engler (PRTB-MG), Clarissa Tércio (PSC-PE), Capitão Alden (PSL-BA) e Cabo Gilberto Silva (PSL-PB).

Captura de tela feita em 11 de outubro de 2021 de uma publicação no Facebook ( .)

“A relação da ‘terceira via’ com o ex-presidiário expressada em uma única imagem”, escreveu Carlos Bolsonaro, em referência ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao movimento de alguns grupos políticos que tentam se unir para conseguir o apoio daqueles que não querem votar nem em Bolsonaro nem em Lula nas eleições presidenciais de 2022.

A foto compartilhada nas redes não tem, contudo, relação com o cenário político brasileiro.

“Make America Great Again”

Uma busca reversa no Google pela imagem viralizada mostra que ela circula desde março de 2017 em múltiplas reportagens (1, 2, 3), mas mencionando um protesto realizado pelo artista espanhol Abel Azcona contra o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Segundo os textos, Azcona tatuou o slogan da campanha de Trump,“Make America Great Again” (“Faça a América grande de novo”, em tradução livre), na região anal, em frente a visitantes da galeria Defibrillator, em Chicago.

De fato, algumas das reportagens são ilustradas com uma foto explícita em que é possível ler o texto tatuado por Azcona e confirmar que não há qualquer relação com o presidente Jair Bolsonaro.

Em 17 de março de 2017, a conta da galeria Defibrillator no Facebook publicou uma matéria do The Huffington Post sobre a performance, reiterando que a tatuagem fazia menção ao slogan de Trump.

Em entrevista ao site de notícias norte-americano, Azcona explicou a razão por trás da intervenção artística:

“Eu sempre trabalhei meu corpo como uma arma e uma ferramenta política. Há mais de 12 anos faço performances e exibições políticas e sociais que me levaram à prisão, a ser detido ou [que provocaram] ameaças de morte. Eu acredito no empoderamento do corpo e da dor. O ânus é uma zona de prazer para muitas pessoas e uma zona de pecado para outras. Eu acho que desmistificar o que é o ânus, e escrever um lema político fascista em meu ânus, é uma ação claramente crítica e subversiva”.

Procurado pelo AFP Checamos em 10 de outubro de 2021, Abel Azcona confirmou que o protesto citado nas redes foi contra o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não contra Bolsonaro.

Em março de 2017, quando a performance foi realizada, o mandatário brasileiro nem sequer era candidato à Presidência da República. Sua candidatura foi oficializada pelo PSL, partido pelo qual foi eleito, apenas em 22 de julho de 2018.

Após a viralização do conteúdo, Azcona compartilhou o tuíte de Carlos Bolsonaro chamando atenção para o fato de que sua intervenção havia sido distorcida.