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Vídeo antigo da execução de uma mulher circula associado ao Afeganistão em 2021

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Um vídeo da execução de uma mulher com véu foi visualizado mais de 3,8 mil vezes nas redes sociais com a alegação de que mostra as novas medidas sociais impostas no Afeganistão após o retorno do Talibã ao poder em 15 de agosto de 2021. No entanto, a gravação circula desde pelo menos 2014 relacionada a eventos ocorridos na Síria.

“CENA FORTE!!! Cabul sob poder do Talibã Mulher é executada por estar sem burca, que até ontem não se usava mais no Afeganistão”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2) e no Twitter (1, 2).

O vídeo, que também circulou em espanhol e inglês, mostra um grupo de homens armados que, após ajoelhar uma mulher em praça pública e discursar em árabe, a executa com um tiro na cabeça.

Captura de tela feita em 18 de agosto de 2021 de uma publicação no Facebook

A gravação voltou a ser compartilhada depois que o Talibã assumiu o controle de grande parte do território afegão e tomou o palácio do governo em Cabul em 15 de agosto de 2021.

Esse movimento islamita radical governou o Afeganistão de 1996 a 2001. Seu regime foi caracterizado pela imposição estrita da "sharia", a lei islâmica, pela realização de execuções públicas e amputações, e pela violação dos direitos humanos, especialmente das mulheres.

No entanto, o vídeo não é recente nem corresponde ao Afeganistão.

Uma busca reversa no Google de um dos fragmentos do vídeo, usando a ferramenta InViD-WeVerify*, resultou em uma notícia publicada em 15 de janeiro de 2015 pelo jornal inglês The Independent com as capturas de tela da gravação e o título "Vídeo da Al-Qaeda mostra a execução pública de uma mulher acusada de adultério".

A nota detalha que o vídeo “foi filmado com um celular por um membro da Frente Al Nusra, afiliado à Al-Qaeda” e cita o Observatório Sírio de Direitos Humanos, que informou que a execução ocorreu na cidade de Idlib, na Síria .

Diferentes pesquisas no Google usando as palavras-chave "Idlib", "execução" e "mulher", levaram a uma publicação de 14 de janeiro de 2015 no site do Comitê Sírio para os Direitos Humanos. Nela consta que o episódio ocorreu em “uma praça pública em Maarat Misrin [...] em frente a uma ampla parede com a frase 'Organização da Al Qaeda no Levante: Frente Al Nusra'”.

A AFP constatou, por meio de várias fotos nas redes sociais e em uma agência de notícias local (1, 2, 3), que a rotatória, os prédios e alguns ornamentos de rua correspondem à cidade síria de Maarat Misrin, no norte de Idlib:

Capturas de tela feitas em 17 de agosto de 2021 de uma postagem no Facebook com o vídeo da execução (esq.) e outra com uma foto de Maarat Misrin

Da mesma forma, o registro mais antigo encontrado pela AFP das capturas do vídeo viralizado data de 25 de novembro de 2014 no site de uma agência de notícias afegã. A descrição também se refere à execução de uma mulher em Maarat Misrin pela Frente Al Nusra.

Originalmente chamado de "Frente Al Nusra", o grupo nasceu em 2012 na esteira do conflito na Síria e fez um juramento de lealdade à Al-Qaeda após se recusar a ingressar no Estado Islâmico (EI). Em 2016, eles anunciaram o rompimento de sua aliança com a Al-Qaeda.

Esse grupo jihadista, atualmente denominado Hayat Tahrir al Sham (HTS) e que, junto com outros grupos rebeldes, controla parte da província de Idlib (no norte da Síria), celebrou a vitória do Talibã no Afeganistão.

* Uma vez instalada a extensão InVid-WeVerify no Chrome, clique com o botão direito do mouse na imagem e o menu que aparece oferecerá a possibilidade de procurá-la em vários navegadores.

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