Novak Djokovic não se referia a Simone Biles quando disse que a “pressão é um privilégio”

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Publicações que asseguram que o tenista sérvio Novak Djokovic disse que “a pressão é um privilégio” e que é preciso aprender a lidar com ela para estar “no topo” após a ginasta norte-americana Simone Biles anunciar que estava fora da disputa geral nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 para cuidar da sua saúde mental foram compartilhadas mais de 3 mil vezes nas redes sociais desde o último 31 de julho. Mas Djokovic disse essas palavras sobre ele mesmo, em referência à pressão que sentia para conseguir o esperado Golden Slam em 2021, e não como uma crítica a Biles. O tenista, inclusive, apoiou publicamente o debate sobre a proteção do bem-estar mental no esporte.

“Djokovic, que não perde a chance de ficar quieto, disse esses dias sobre a saída da Simone Biles: ‘A pressão é um privilégio. Eu aprendi como administra-la’” e “Djokovic sobre Simone Biles e a pressão dos Jogos Olímpicos: ‘Se quer estar no topo, é melhor aprender a lidar’!”, indicam algumas das postagens compartilhadas no Facebook (1, 2, 3), no Twitter (1, 2, 3) e no Instagram (1, 2, 3).

Alguns meios de comunicação (1, 2) também asseguraram se tratar de uma mensagem a Biles, ou uma reação à sua saída das finais olímpicas.

Captura de tela feita em 3 de agosto de 2021 de uma publicação no Facebook

A mesma alegação foi amplamente compartilhada em publicações em espanhol (1, 2, 3) e inglês.

Com 24 anos, Simone Biles, quatro vezes campeã olímpica na Rio-2016 e 19 vezes campeã do mundo, abandonou a final por equipes e anunciou que não disputaria as finais do individual geral, do salto, das barras assimétricas e do solo.

Após sua saída da final por equipes, em 27 de julho, a estrela da seleção de ginástica norte-americana disse estar “lidando com demônios” em sua cabeça e assinalou sua intenção de cuidar de sua saúde mental.

Neste 3 de agosto, ao disputar a final da trave de equilíbrio, Biles conquistou a medalha de bronze e disse ter ficado “orgulhosa de ter sido capaz de competir mais uma vez”.

Djokovic, por sua vez, perdeu a partida que valia a medalha de bronze em 31 de julho para o espanhol Pablo Carreño. O número um do mundo jogou a raquete contra a grade e depois e destruiu outra contra a rede, o que endureceu as críticas contra ele na internet devido à suposta declaração sobre Biles.

A pressão do Golden Slam

Em espanhol, alguns meios de comunicação afirmaram (1, 2) que Djokovic fez a declaração para a agência Reuters em 28 de julho, quando competia pela classificação às etapas finais em individual e em dupla em Tóquio.

No artigo da Reuters pode-se ler, contudo, que ele estava se referindo a si mesmo e não ao debate aberto por Biles após sua decisão de não participar de algumas finais:

“‘A pressão é um privilégio’, disse Djokovic quando questionado sobre a atenção recebida depois de chegar às quartas de final individuais e também de ganhar uma partida mista de duplas na quarta-feira”, indica o texto. “Sem pressão não há esporte profissional. Se você quer estar no topo do jogo, é melhor começar a aprender a lidar com a pressão”, acrescentou o tenista de 34 anos, citado pela agência.

O jornalista da Reuters Sudipto Ganguly explicou em sua conta no Twitter o sentido da pergunta que havia feito.

O questionamento foi: “Novak, você deve ter ouvido sobre Simone Biles falando ontem sobre saúde mental e pressão de atuar. Você está nessa posição buscando o Golden Slam, como sabe, não há mais pressão sobre um tenista do que há sobre você atualmente. Pode falar um pouco sobre isso?”.

A pergunta faz referência ao Golden Slam, como é conhecida a obtenção de quatro Grand Slams e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos em um mesmo ano, um reconhecimento que nenhum tenista masculino conseguiu na história e que foi uma das maiores atrações para os espectadores do evento na capital japonesa.

Martyn Wood, um dos repórteres da AFP que cobre os Jogos em Tóquio, assegurou que “Simone Biles foi mencionada como parte da pergunta, mas sua resposta só se referia a ele [Djokovic] e a mais ninguém”.

Wood forneceu à equipe de verificação da AFP a gravação de áudio da entrevista, na qual esteve presente, onde se pode ouvir que a pergunta foi como Ganguly contou no Twitter e que Djokovic não menciona Biles.

Nesse mesmo dia, acrescentou Wood, o tenista foi visto explicando às equipes masculina e feminina de vôlei da Turquia como seu enfoque mental foi crucial para sua carreira, uma cena que ficou registrada em um vídeo compartilhado nas redes sociais.

Novak Djokovic durante a partida pela medalha de bronze dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, em 31 de agosto de 2021 ( AFP / Tiziana Fabi)

Declaração de 2020

Essa não é a primeira vez que o tenista sérvio diz a frase vista por algumas pessoas como dirigida a Biles.

Uma pesquisa por palavras-chave no YouTube levou a uma entrevista publicada em 3 de setembro de 2020, enquanto era disputado o US Open. Um dia antes, ele havia derrotado o britânico Kyle Edmund no estádio Arthurt Ashe, a quadra central desse torneio:

“Não sinto nenhuma pressão além da pressão que sempre existe, por ser um jogador de primeira linha você sempre espera ganhar cada partida individual, especialmente em um grande evento. (...) Há uma bela frase da (ex-tenista americana) Billie Jean King: ‘Na entrada de um estádio com ar condicionado, a pressão é um privilégio’. Sabe, eu fico com esse tipo de frase e esse tipo de pensamento’”, disse.

O sérvio ainda destacou: “Simplesmente aceito que não é a primeira nem a última vez que posso jogar na quadra central e acho que a experiência ajuda”.

Como dito por Djokovic, a frase é da ex-tenista Billie Jean King, que intitulou assim um livro sobre sua carreira. Em uma entrevista ao The Washington Post, a 39 vezes vencedora do Grand Slam explicou o significado da frase em 2019:

“A pressão é um privilégio. Normalmente, se você tem uma pressão tremenda é porque uma oportunidade está se apresentando. Lembro de pensar sobre isso, na verdade, quando estava na quadra central de Wimbledon. E disse: ‘Está bem. Você tem sonhado com este momento. É muita pressão? Sim. Mas adivinhe? É um privilégio estar aqui. (...) Me dê a bola. Me dê o problema para resolver. Nós vamos resolver isto. Vamos”, contou.

Essa também não é a primeira vez que Djokovic se pronuncia sobre saúde mental e pressão dos resultados. Em junho de 2021, quando sua colega japonesa Naomi Osaka, de 23 anos, fez uma pausa na carreira devido à “ansiedade” com que ficava ao participar das coletivas de imprensa, o sérvio disse que “a entendia perfeitamente”.

“Tenho empatia por ela (...) sei como ela se sente, eu a apoio. Acho que foi muito corajosa por ter feito. Lamento que ela esteja passando por momentos dolorosos e sofrendo mentalmente”, disse a veículos de comunicação.

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