As falas atribuídas aos jornalistas não foram feitas, mas o comentário do portal G1 foi publicado no Facebook

Publicações compartilhadas mais de 6 mil vezes nas redes sociais desde 9 de setembro de 2019 afirmam que a Rede Globo atacou “crianças, o presidente e todo o Brasil” em declarações diversas. O AFP Checamos verificou as afirmações imputadas à emissora: um comentário do portal G1 em sua conta no Facebook chamando de “imbecil” uma criança que desfilava ao lado do presidente Jair Bolsonaro realmente foi feito; contudo, uma fala atribuída ao jornalista Mario Sergio Conti foi erroneamente creditada, e outra, do jornalista Guga Chacra, foi deturpada.

“A REDE #GLOBOLIXO É A MAIOR INIMIGA DA FAMÍLIA TRADICIONAL BRASILEIRA !!! ESTE ESGOTO MIDIÁTICO TRAVESTIDO DE EMISSORA, INCENTIVA O GAYZISMO, O ANTICRISTIANISMO, [...] ATACA A POLÍCIA , A LAVA JATO E AS AUTORIDADES JUDICIAIS HONRADAS E DEFENDE BANDIDOS, FOMENTA O ÓDIO ENTRE PAIS E FILHOS, DIVIDE NÚCLEOS FAMILIARES E OFENDE A MORAL E OS BONS COSTUMES... VAMOS BOICOTAR ESTE LIXO !!! [...] [sic] e “A Rede Globo tem ultrapassado todos os limites morais, de princípios e agora civilizatórios, no Brasil. #globolixo #foraglobo #GLOBOLIXO”, dizem as legendas de algumas publicações (1).

O AFP Checamos verificou as três declarações atribuídas à emissora no meme viralizado e que leva acima os dizeres: “Em apenas 24 horas, Rede Globo ataca crianças, o presidente e todo o Brasil”.

Captura de tela feita em 11 de setembro de 2019 mostra a postagem viralizada

Ofensa a criança

“Moleque imbecil, vai se alfabetizar”, lê-se em uma suposta captura de tela junto com a foto do menino de nove anos Ivo César Gonzaga, que desfilou no dia 7 de setembro ao lado do presidente Jair Bolsonaro em Brasília durante as celebrações do Dia da Independência.

Noticiado pela imprensa, o comentário chamando a criança de "imbecil" foi feito em uma publicação da matéria do desfile da Independência na página oficial do portal G1 no Facebook , e já foi apagado.

Logo depois, o portal admitiu em nota que “a conta do G1 foi indevidamente utilizada para um comentário ofensivo sobre o menino que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro no desfile de 7 de setembro”, e acrescentou: “O G1 repudia o uso de sua conta e anuncia que vai investigar o ocorrido e tomar as medidas cabíveis”.

Em 10 de setembro de 2019, uma série de veículos da imprensa, entre eles a coluna da jornalista Mônica Bergamo no site da Folha de S. Paulo, noticiou a demissão do responsável pela ofensa.

A equipe do AFP Checamos entrou em contato por e-mail com a assessoria da TV Globo, que confirmou de forma sucinta: “O funcionário do G1 foi demitido”.

O pulmão de Bolsonaro

A segunda imagem atribuiu ao jornalista Mario Sergio Conte a seguinte declaração: “A facada que o Presidente da República levou há um ano deveria ter perfurado o seu pulmão e o levado à morte”.

Mas essa atribuição é equivocada. Alguns sites que publicaram a fala, por exemplo, usaram como prova o seu texto veiculado no site da Folha de S. Paulo, “Sol negro no céu da pátria”.

Captura de tela feita em 11 de setembro de 2019 da coluna do jornalista Mario Sergio Conti publicada no site do Jornal da Cidade Online

Lendo a coluna completa, pode-se ver que o jornalista está citando o escritor americano Benjamin Kunkel. Inclusive, a parte usada para comprovar a suposta fala de Conti é uma citação direta de um texto do americano e não afirma que o presidente Bolsonaro deveria ter morrido.

“Kunkel entende do assunto: em 2014, escreveu uma peça de teatro, ‘Buzz’, sobre o aquecimento global. O ensaio é circunstanciado, mas o que chama a atenção são duas frases bombásticas, nas quais a violência irrompe. Ei-las: ‘Entre os grandes desastres ecológicos do século 21 está o fato de o assassino que esfaqueou Bolsonaro no peito, na campanha presidencial de 2018, não ter tido sucesso em matar o homem, a despeito de a lâmina ter entrado num pulmão. Esse julgamento pode soar sanguinolento, mas qual pulmão você prefere, o do planeta ou o de Bolsonaro?’”, replica o jornalista.

De fato, Kunkel publicou isto, não Conti. O AFP Checamos encontrou o ensaio, disponível on-line desde 4 de setembro deste ano, aqui reproduzido no original:“Among the great ecological disasters of the 21st century is the fact that the assassin who stabbed Bolsonaro in the chest during his 2018 presidential campaign did not succeed in killing the man, in spite of the blade’s having penetrated a lung. That judgment may sound bloodthirsty, but whose lungs do you prefer, the planet’s or Bolsonaro’s?”.

Nojo do país

Por fim, a última fotografia mostra o também jornalista Guga Chacra com a afirmação: “Sinto nojo e vergonha do Brasil e de tudo o que a figura do Presidente da República representa”.

A fala imputada a Guga Chacra na publicação viralizada, na realidade, não existiu. No programa “Em Pauta”, da GloboNews, que faz parte do Grupo Globo, o jornalista estava comentando o caso do ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, ter dito em evento que a primeira-dama da França, Brigitte Macron, era “feia mesmo”.

Sobre isso, Guga Chacra comentou no programa: “Que nojo, que asco da declaração do ministro da Fazenda do Brasil, Paulo Guedes. É patético. Ele sabe que é errado, que não é uma brincadeira, é uma ofensa, um insulto totalmente infeliz. [...] É inacreditável. As pessoas perderam a noção do que é educação. Um ministro da Fazenda, um presidente da República não têm mais ideia do que é educação, do que é respeito, de como se comportar […] ver um ministro da Fazenda dar uma declaração dessa, assim, consciente do que está falando… que nojo, que asco, que falta de respeito, que falta de educação. [...] Que falta de exemplo, que terror que está acontecendo no Brasil. Que vergonha”.

Em nenhum momento o jornalista diz ter nojo e vergonha do país ou do presidente da República. Inclusive, Guga Chacra se pronunciou sobre o caso em sua conta no Twitter.

Em resumo, a publicação atribui falas que não foram feitas aos jornalistas Mario Sergio Conti e Guga Chacra. No caso do menino que desfilou com o presidente Bolsonaro, por sua vez, o comentário efetivamente foi feito, mas a empresa tomou as providências cabíveis e declarou ter demitido o responsável.

AFP Brasil