Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, participa de coletiva de imprensa sobre a COVID-19 em 11 de março de 2020 (AFP / Fabrice Coffrini)

Fala de diretor-geral da OMS não significa que a organização deixou de apoiar o isolamento social contra a COVID-19

Um trecho de uma fala do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), no qual ele alerta para os impactos econômicos do distanciamento social, tem sido compartilhado nas redes sociais para fundamentar a afirmação de que a entidade “recuou” em sua defesa de medidas de isolamento contra o novo coronavírus. O alerta de Tedros Adhanom Ghebreyesus, compartilhado, inclusive, pelo presidente Jair Bolsonaro, não significa, contudo, que a OMS tenha deixado de apoiar o isolamento social como estratégia contra a doença.

“OMS recua e diz que governos devem pensar em quem precisa garantir o pão de cada dia”, diz o título de um artigo, compartilhado mais de 16 mil vezes no Facebook desde 30 de março, segundo a ferramenta de monitoramento CrowdTangle.

Captura de tela feita em 1º de abril de 2020 mostra vídeo publicado no Facebook do presidente Jair Bolsonaro

“Presidente da OMS MUDANDO de posição sobre o isolamento. Ele vai na MESMA direção do que o MITO Jair Messias Bolsonaro fala desde o princípio. Por favor DIVULGUEM. DEUS ESTÁ NO COMANDO DO NOSSO PAÍS”, escreveu outro usuário em uma publicação compartilhada centenas de vezes no Facebook, também desde 30 de março.

As postagens acompanham um vídeo, gravado durante uma coletiva de imprensa da OMS no dia 30 de março, no qual Adhanom Ghebreyesus pede que os governos levem em consideração os impactos econômicos que um lockdown pode ter sobre as pessoas mais pobres.

A gravação foi compartilhada com uma alegação semelhante pelo presidente Jair Bolsonaro, no Facebook e no Youtube, com a legenda: “Algo mudou na OMS? - Agora se preocupam com os informais? - Jair Bolsonaro sempre esteve certo?”

Nas redes, o vídeo também foi publicado pelo ex-ministro da Cidadania do governo Bolsonaro, Osmar Terra, assim como pelos filhos do presidente, Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro.

No entanto, uma análise do trecho completo da coletiva de imprensa de 30 de março, assim como um posicionamento posterior de Tedros Adhanom Ghebreyesus, demonstra que a Organização Mundial da Saúde não deixou de apoiar o isolamento social como medida para prevenir o contágio do novo coronavírus.

O que disse o diretor-geral da OMS

No vídeo viralizado nas redes, Adhanom Ghebreyesus respondia à pergunta de uma repórter da Índia sobre a crise humanitária que o país tem enfrentado em meio à pandemia. Na semana passada, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, impôs a quarentena a 1,3 bilhão de habitantes.

“Alguns países têm um forte sistema de bem-estar social e outros não”, disse. “Os governos devem ter em conta esta população; se estamos fechando, ou se estamos limitando a movimentação, o que vai acontecer às pessoas que têm de trabalhar diariamente e têm de ganhar o pão de cada dia?”, questionou o diretor-geral da OMS.

Por conta da repercussão de sua fala, o diretor-geral da OMS esclareceu posteriormente que não quis dizer que os países não deveriam impor o distanciamento social para conter a disseminação da COVID-19, mas que os governos deveriam desenvolver políticas para proteger os mais vulneráveis.

“Pessoas sem rendas regulares, ou qualquer reserva financeira, merecem políticas sociais que garantam a dignidade e que lhes permitam cumprir com as medidas de saúde pública para a #COVID19 recomendadas por autoridades nacionais de saúde e pela OMS”, escreveu no Twitter.

“Cresci na pobreza e entendo essa realidade. Peço que os países desenvolvam políticas públicas para garantir proteção econômica àqueles que não podem ganhar dinheiro ou trabalhar em meio à pandemia da COVID-19. Solidariedade!”, acrescentou.

A fala de Adhanom não representou uma mudança de postura da OMS em relação ao isolamento social, como insinuam as publicações do vídeo da coletiva viralizadas nas redes sociais. Em 30 de janeiro deste ano, a entidade emitiu um comunicado afirmando acreditar que seria possível interromper a propagação do vírus caso os países promovessem, entre outras iniciativas, “medidas de distanciamento social proporcionais ao risco”.

No último dia 30 de março, em resposta à mesma pergunta feita pela repórter indiana, o diretor do programa de Emergências de Saúde da entidade, Michael Ryan, reforçou a importância dos lockdowns para contenção da doença, como visto no vídeo abaixo a partir dos 34 minutos e 30 segundos.

“Infelizmente, em algumas situações neste momento, lockdowns [medidas de quarentena] são a única medida que os governos podem realmente tomar para conter este vírus”, disse Ryan. “É lamentável, mas essa é a realidade e precisamos explicar continuamente as razões para isso às nossas comunidades”.

A assessoria de comunicação da OMS, em resposta ao Comprova - projeto de verificação colaborativa integrado pelo AFP Checamos - declarou: “o que podemos esclarecer é o que o diretor-geral da OMS disse em suas declarações à imprensa ontem. Ele foi muito claro. Disse que cada país precisa fazer sua própria avaliação [de quais medidas, incluindo restrições de movimento, eles devem implementar], e ao fazer isso eles precisam levar em conta a realidade daqueles que precisam ganhar a vida diariamente e que essas pessoas precisam ser protegidas, cuidadas.”

Em resumo, são enganosas as publicações que afirmam que a OMS deixou de apoiar medidas de isolamento como estratégia para combater o novo coronavírus. A fala em que o diretor-geral da entidade alerta para os impactos econômicos do distanciamento social tinha como intenção pedir que governos desenvolvam políticas para proteger os mais vulneráveis, como explicou o próprio Adhanom Ghebreyesus no Twitter. Na mesma coletiva de imprensa, outro representante da OMS defendeu a necessidade do isolamento.

Leia abaixo a transcrição completa do que Adhanom Ghebreyesus disse sobre isolamento social de pessoas mais pobres, em 30 de março de 2020.

Esse texto faz parte do Projeto Comprova. Participaram jornalistas do jornal O Estado de S. Paulo e da revista Exame. O material foi adaptado pelo AFP Checamos.

AFP Brasil