Essas imagens não mostram dois oceanos que se encontram no Golfo do Alasca

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Publicações compartilhadas mais de 158 mil vezes desde o último mês de maio mostram fotos de um suposto ponto no Golfo do Alasca “onde dois oceanos se encontram mas não se unem”. As imagens, no entanto, correspondem a diferentes pontos geográficos e fenômenos como o encontro da água doce de rios e geleiras com o mar, e que sim, se unem, ou misturam, ou o caso de um navio que causou a espuma na quebra das ondas.

“Para quem não sabe..... Este é o golfo do Alasca...... Onde dois oceanos se encontram mas não se unem”, indica uma das publicações no Facebook (1, 2, 3), acompanhadas por três imagens que mostram a suposta linha que divide dois oceanos, um de água mais escura e outro, de água mais clara.

Embora essas três imagens tenham sido replicadas desde maio também no Twitter (1, 2) e Instagram (1, 2), o mito dos oceanos que se encontram no sul do Alasca circula nas redes sociais ao menos desde 2016 e em outros idiomas, como o espanhol.

Alguns usuários atribuem o fenômeno a um milagre divino, citando o seguinte versículo da Bíblia: “Jó 38:10,11 Eu coloquei um limite no mar e fechei suas comportas. E eu disse-lhe: ‘Até aqui você chegará, e não passará mais tarde, e aí parará o orgulho das suas ondas’”.

Captura de tela feita em 4 de novembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Outros, por sua vez, asseguram que as imagens correspondem ao encontro entre o Mar de Bering e o Pacífico Norte: “no Alasca, dois oceanos se encontram, mas a água não se mistura, um é o Mar de Bering e o outro é o Oceano Pacífico Norte”.

A equipe de checagem da AFP investigou a origem das imagens.

Do Golfo do Alasca, mas não oceanos

Captura de tela feita em 5 de novembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Uma busca reversa pela primeira foto no Google mostrou que ela foi publicada em uma nota no site Anchorage Daily News em 2013. No texto, explica-se que a imagem foi registrada pelo fotógrafo Kent Smith durante uma viagem de cruzeiro pelo Golfo do Alasca em 4 de julho de 2010.

Na descrição da fotografia intitulada “Merging oceans” (Fundindo oceanos, em tradução livre) na rede social Flickr, Smith explica que pensou que se tratava do fenômeno mais incomum que havia presenciado durante um cruzeiro pelo Alasca.

“Estive na varanda durante bastante tempo quando notei o que parecia ser uma sombra projetada pelas nuvens sobre o oceano em frente ao navio. Quando nos aproximamos da sombra, me dei conta de que era algo diferente. Tirei muitas fotos até o momento em que registrei esta [fotografia], mas nunca publiquei-as até um ano após essa imagem ter viralizado”, escreveu.

Sobre o fenômeno visto na imagem, a Fundação Aquae indica que Ken Bruland, pesquisador e professor de Ciências da Universidade da Califórnia-Santa Cruz, nos Estados Unidos, batizou-as como “eddy”. Tratam-se de “redemoinhos de centenas de quilômetros de diâmetro que formam as correntes e a convecção oceânica”.

“Esses redemoinhos levam consigo grandes quantidades de sedimentos glaciais. [...] Embora seja imperceptível nas imagens, [os dois corpos de água] chegam, sim, a se misturar. Portanto, estamos diante de um fenômeno natural que tem uma explicação, mas que não impede que siga parecendo surpreendente”, explica o relatório da fundação.

O pesquisador do Laboratório de Oceanografia Física da Universidade Autônoma do México (UNAM) David Alberto Salas León concordou, após observar a imagem, que se tratam de “regiões nas quais águas de diferentes características (temperatura, salinidade, oxigênio, organismos microscópicos) se chocam”.

“Quando acontece o descongelamento de um iceberg ou de uma geleira que chega ao mar, a água flui até o mar e esta tem uma temperatura diferente (mais fria), não tem sal (é água doce) e não leva consigo os organismos microscópicos (plânctons) que existem nas águas do mar. Tendo diferentes quantidades de oxigênio dissolvido, isso afeta a sua cor e se torna evidente quando se encontram - a água do mar é azul, enquanto as outras tendem a ser azul esbranquiçadas”, detalhou à AFP, e exemplificou: “é como quando colocamos o leite no café, que se pode distinguir o que é leite e o que é café”.

E acrescentou que essa divisão “permanecerá assim por muito tempo, a menos que apareça um mecanismo que as misture, que no caso do café e do leite é a colher; enquanto no mar é o vento, são as ondas e as marés. Ainda assim, o processo de mistura é lento”.

Mississippi e o Golfo do México

Captura de tela feita em 5 de novembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Uma busca reversa pela segunda imagem mostrou que ela foi retirada de um vídeo da Revista Marlin, publicado em seu site em 9 de julho de 2015, registrado na região norte do Golfo de México, na desembocadura do Rio Mississippi, perto do estado da Louisiana.

No YouTube, a mesma sequência desta revista tem a seguinte descrição: “uma verdadeira amostra de cores quando o Golfo do México encontra o Rio Mississippi”.

Neste ponto geográfico do Golfo de México é criada uma “zona morta”, um lugar onde, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos, se mistura a contaminação do Rio Mississippi com o oceano.

De acordo com relatórios deste organismo, a previsão é de que esta mancha marinha tenha coberto cerca de 17.000 km² em 2020. Ela é gerada devido ao crescimento acelerado de algas que limitam o oxigênio em suas profundidades e, com isso, há a falta de fauna marinha.

Outras instituições acadêmicas, órgãos de pesquisa e meios de comunicação documentaram este fenômeno, que se intensifica após a temporada de chuvas da primavera nos Estados Unidos.

O Caribe

Captura de tela feita em 5 de novembro de 2020 de uma publicação no Facebook

O primeiro registro desta imagem foi encontrado na rede social Flickr em uma foto tirada em 15 de dezembro de 2008 com o título “Avalanche no mar”, publicado pelo usuário Rajeev Patel.

Ao ser contatado por meio do Facebook pela equipe de checagem da AFP, Patel desmentiu que a fotografia tivesse sido tirada no Golfo do Alasca, ou que se tratasse do encontro de dois oceanos.

Ele indicou que, “de fato, a fotografia foi tirada no Caribe durante um cruzeiro”.

Outra foto do mesmo momento, mas de um ângulo diferente, foi publicada pelo mesmo usuário, assegurando que “o branco [espuma] é causado pelo navio enquanto quebra as ondas”.

Em resumo, as imagens viralizadas nas redes sociais não mostram dois oceanos que se encontram e não se unem no Golfo do Alasca. Trata-se, na realidade, de um fenômeno no qual se misturam água doce de rios e geleiras com o mar em diferentes lugares, ou de um navio que, ao quebrar as ondas, gera uma espuma que parece estar separada do restante da água.

Tradução e adaptação
AFP Brasil