É exagerado dizer que os gambás suportam "até 80 picadas de cascavel ou coral"

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Várias publicações que circulam desde o final de agosto nas redes sociais, onde foram compartilhadas mais de 246 mil vezes, garantem, entre outras coisas, que os gambás têm "imunidade extrema" ao veneno das cobras, suportando “até 80 picadas de cascavel ou coral” e que são capazes de comer milhares de carrapatos em uma semana. Essas afirmações são exageradas.

“O gambá é capaz de suportar até 80 picadas de cascavel ou coral e come jararaca como se fosse batata frita. Graças a este marsupial, existe o antídoto contra picadas de cobras venenosas. Por favor, não os matem!”, afirmam diversas postagens no Facebook (1, 2, 3), que circulam pelo menos desde fevereiro de 2020. 

O texto também foi encontrado no Twitter (1, 2) e no Instagram (1, 2). 

Em outra publicação semelhante no Facebook, afirma-se que o animal pode comer “até 4.000 carrapatos em uma semana”.

Esse conteúdo também circulou em espanhol com uma foto de um pequeno animal na mão de uma pessoa.

Captura de tela feita em 16 de dezembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Analisando a imagem que circulou nas redes sociais, o mastozoólogo Enrique González, do Museu de História Natural do Uruguai, explicou à AFP que o animal é um marsupial, mas que somente por essa foto não é possível determinar a espécie.

Os marsupiais têm diferentes nomes que variam por região. No México, por exemplo, é chamado de tlacuache; na Espanha, de zarigüeya, e no Uruguai de doninha, embora não seja o mesmo animal que a doninha norte-americana ou europeia, que não é um marsupial onívoro (que se alimenta de plantas e animais), mas um mustelídeo carnívoro.

As mudanças de idiomas acompanham as diferenças: o tlacuache, o zarigüeya e o gambá sul-americano são chamados de “opossum” em inglês, enquanto as doninhas norte-americanas ou europeias são denominadas de “weasel”.

Carrapatos

A Associação Mexicana de Mastozoologia (AMMAC) assinalou à AFP que doninhas ou gambás sul-americanos "se alimentam, entre outras coisas, de carrapatos".

A instituição se referiu a uma publicação em uma revista da Royal Society of London de 2009 que detalha um experimento com um gambá da América do Sul (opossum) e um esquilo, que “matam entre 83 e 96% dos carrapatos que tentam se prender e se alimentar, enquanto outras espécies são mais permissivas”.

O estudo detalha que apenas 3,5% dos carrapatos que usaram o gambá como hospedeiro conseguiram sobreviver e calcula que, durante uma semana, no período de maior atividade larval, apenas 199 desses carrapatos, de um total de 5.500 que tentam se alimentar de um gambá, sobreviveriam. Ou seja, com sua técnica de higiene, o gambá consegue matar cerca de 5.300 carrapatos por semana, 757 por dia, em média.

Resistência a veneno de cobra

González destacou que as cobras “mordem”, como qualquer animal com dentes, portanto é incorreto dizer que “picam”.

Estudos (1, 2, 3) desenvolvidos principalmente na América do Sul revelam que os gambás sul-americanos são, de fato, resistentes a mordidas de cobras como jararaca e cascavel pela presença de proteínas antiofídicas, chamadas DM43 e DM64, no seu sangue.

O pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e um dos autores desses estudos,  Jonas Perales, explicou à equipe da AFP que “essas proteínas presentes no sangue do gambá têm a capacidade de neutralizar o efeito tóxico do veneno de certas cobras”, tornando esses animais “altamente resistentes”

O gambá é muito resistente. Não é a todas as cobras, porque elas têm venenos completamente diferentes entre elas. Não há resistência universal. Mas os gambás são muito resistentes a jararaca”, esclareceu Perales. 

As publicações afirmam que “o gambá é capaz de suportar até 80 picadas de Cascavel ou Coral e come jararacas como se fosse batatas fritas”

A primatologista Denise Lyons segura um gambá no Zoológico Nacional de Manágua em 22 de abril de 2016 (Inti Ocon / AFP)

Consultado se os gambás também seriam resistentes ao veneno de cobra coral, Perales respondeu que “muito provavelmente sim”, mas ressaltou que ainda não há estudos científicos envolvendo a cobra coral. 

Quanto ao número de mordidas, o pesquisador da Fiocruz afirmou que “não há estudo sobre esse número, mas provavelmente esse número (80) é exagerado”

Enrique González concorda, ao afirmar que essa quantidade de “picadas” não parece estar baseada em evidências científicas e lembra que "uma coisa é a mesma cobra morder você 80 vezes e outra é ser mordido por 80 cobras diferentes". Segundo o mastozoólogo, o veneno desses répteis é composto de saliva modificada e costuma se esgotar nas primeiras mordidas.

Da mesma forma, a afirmação de que o gambá “come cascavel como batata frita” pode ser considerada um exagero. Perales confirma que “os gambás comem cobras”, mas isso é feito “ocasionalmente”, e não de modo trivial como a comparação leva a pensar.  

Antídoto

As publicações afirmam que “graças a eles (os gambás) existe o antídoto a picadas de cobra”. No entanto, nem a doninha europeia, nem o gambá sul-americano, nem o mangusto são usados ​​na investigação do antiveneno, porque “os métodos de produção do antiofídico já são conhecidos e usados ​​no mundo há décadas”, disse González.

Os responsáveis pelos antídotos ​​são os cavalos, os coelhos e animais que são usados ​​para a injeção de veneno a fim de verificar a sua resistência”.

Em particular,o mastozoólogo referiu-se aos cavalos: “A produção de antiveneno baseia-se no fato de que uma vez que o veneno entra no corpo do animal, o que ele faz é gerar uma reação. Isso pode fazer com que ele morra, mas quando injetado em um cavalo, por exemplo, o que ele faz é produzir anticorpos e, com isso, é feito o soro antiofídico”.

O antiofídico do Laboratorios Probiol, por exemplo, é descrito como "Imunoglobulinas de origem equina com alto teor de anticorpos neutralizantes do veneno de cobras do gênero Micrurus". Outro medicamento, o Antivipmyn, contém "fragmentos de imunoglobulina G (IgG) F (ab ') 2 hiperimune de antivipéride de cavalo". O CroFab também contém "unidades de neutralização de antiofídico" de origem equina.

Jonas Perales alerta que as proteínas antiofídicas presentes naturalmente no sangue dos gambás não devem ser confundidas com os anticorpos produzidos pelos cavalos em reação ao veneno das serpentes. 

Embora até o momento a produção dos soros antiofídicos esteja amplamente baseada nos anticorpos gerados pelos cavalos em resposta ao veneno de cobras, a Fiocruz noticiou, em julho de 2005, uma pesquisa que poderia resultar em um tratamento mais eficaz para o envenenamento por mordidas de determinadas cobras a partir de “de inibidores de toxinas ofídicas originalmente isolados do sangue do gambá sul-americano”

Identificada a ação inibidora das proteínas DM43 e DM64, os pesquisadores da Fiocruz “clonaram, então, a parte do DNA do gambá relativa à produção das duas proteínas”, o que contribui para o sequenciamento das moléculas e, posteriormente, para a sua fabricação em laboratório. 

Perales, um dos envolvidos nessa pesquisa, disse à AFP que “a Fiocruz já produz essa proteína”, mas que “não existe pesquisa na Fiocruz para a produção do soro” a partir das proteínas do gambá sul-americano. 

González também afirmou que não há “evidências de soros antiofídicos desenvolvidos graças a esses marsupiais”

Em conclusão, as afirmações das publicações sobre a imunidade dos gambás ao veneno de cobras e sobre sua ingestão de carrapatos, embora tenham respaldo científico sobre resistência a venenos de cobras jararaca e cascavel, são exageradas, já que não há comprovação de que gambás sejam imunes a 80 “picadas” ou que comam cascavéis como “batata frita”

EDIT 21/12: Modifica a classificação. Adiciona estudos e depoimento de especialista da Fiocruz sobre a imunidade dos gambás.
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