Tarifa de 55% imposta pela China ao Brasil aplica-se apenas à carne bovina
- Publicado em 31 de julho de 2026 às 16:48
- 3 minutos de leitura
- Por Joao Pedro CAPOBIANCO, AFP Brasil
Em 22 de julho de 2026 entrou em vigor um novo tarifaço da Casa Branca contra o Brasil. Pela regra, produtos brasileiros passam a ser taxados em 25% para entrar nos Estados Unidos. Nesse contexto, publicações nas redes sociais com mais de 450 mil visualizações alegam que a China taxou o Brasil em 55%, com impactos “de ponta a ponta” na economia. De acordo com as postagens, a imprensa teria se calado diante da tarifa chinesa. Mas as alegações são enganosas. A tarifa chinesa de 55% aplica-se somente à carne bovina, que é alvo de cotas de importação no país asiático.
“China taxa Brasil em 55% e afeta economia de ponta a ponta; imprensa silencia”, dizem publicações no Facebook, no Instagram e no TikTok.
As publicações viralizaram nas redes sociais em meio à introdução de um novo tarifaço pelo governo Donald Trump, dos Estados Unidos, contra produtos brasileiros. A alegação foi amplificada, por exemplo, pelo ex-secretário de Cultura e deputado federal candidato à reeleição Mário Frias (PL), em seu perfil no Instagram.
Mas, ao contrário do que as postagens dão a entender, a China não impôs uma tarifa de 55% a toda a economia brasileira.
O número diz respeito a uma tarifa específica para carne bovina anunciada em dezembro de 2025 pelo Ministério do Comércio chinês. Outros países exportadores de carne, como Argentina, Uruguai, Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos, também são impactados.
A China adota uma taxa de importação de 12% para carne bovina e, com a nova regra, em vigor desde 1º de janeiro de 2026, foram introduzidas cotas para o produto. Ou seja, uma vez que o país atingir uma determinada quantidade de carne importada, uma nova taxa — estipulada em 55% — passa a ser cobrada.
Além de uma cota total de 2,7 milhões de toneladas, autoridades comerciais chinesas estipularam uma cota específica para cada país. No caso brasileiro, a cota é de 1,1 milhão de toneladas — a maior entre os grandes exportadores do produto. Somente quando as importações pela China ultrapassarem este volume é que a taxa adicional de 55% passa a ser cobrada. Em julho, 80% desse volume foi atingido.
Em nota ao AFP Checamos, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil afirmou que “a China não introduziu nenhuma taxação generalizada de 55% contra produtos brasileiros”.
A pasta informou que medidas como a que a China adotou são autorizadas pelo Acordo de Salvaguardas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e são um tipo de “ação emergencial e temporária pela qual um membro da OMC restringe as importações de determinado produto”. A China anunciou que a medida terá um prazo de duração de três anos.
O Ministério da Agricultura e Pecuária também esclareceu, em 22 de julho de 2026, que a China não impôs novas tarifas ao Brasil e que as publicações virais tratam da medida anunciada pelo país em dezembro de 2025.
Ao contrário do que as publicações afirmam, a imprensa repercutiu a informação assim que o anúncio foi feito pelo governo chinês, em 31 de dezembro de 2025 (1, 2, 3, 4).
Taxas aplicadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros
Desde 22 de julho de 2026, os Estados Unidos passaram a cobrar uma taxa de 25% de produtos importados do Brasil. A decisão decorreu de uma investigação baseada na seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, que autoriza retaliações quando práticas políticas ou comerciais forem consideradas injustas. Mercadorias consideradas importantes para os EUA estão isentas da cobrança.
Ao contrário da taxa adotada pela China, direcionada a um produto específico, a medida introduzida pelos EUA tem o Brasil como alvo.
A Casa Branca justificou a taxação com alegações de que o Brasil adotou medidas injustas contra os EUA, por exemplo, ao adotar o Pix em detrimento de meios de pagamento norte-americanos e ao requisitar a remoção de conteúdo de perfis de redes sociais que pertencem a pessoas que residem nos Estados Unidos.
Em seu perfil no X, o Secretário de Estado Marco Rubio afirmou que a taxação de 25% a produtos brasileiros ocorreu porque “o presidente Lula e seu governo não negociaram de boa-fé com os Estados Unidos”.
Além da taxa de 25%, uma outra tarifa de 12,5% foi anunciada para produtos ligados a práticas de trabalho forçado. A medida atinge 60 países, incluindo o Brasil. Dessa forma, parte da pauta exportadora brasileira pode ser impactada com uma taxação de até 37,5% para entrar nos Estados Unidos.
Conteúdo semelhante foi checado por Reuters, Agência Lupa e UOL Confere.
Referências
- Anúncio da introdução de medidas de salvaguarda pelo Ministério do Comércio da China
- Nota do Ministério da Agricultura sobre publicações virais relativas à taxação chinesa
- Notícias da imprensa brasileira sobre taxa adotada pela China em dezembro de 2025 (1, 2, 3, 4)
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