Divergência entre Moraes e Mendonça sobre quebra de sigilo é falsamente associada ao caso Master

  • Publicado em 24 de março de 2026 às 20:40
  • 3 minutos de leitura
  • Por AFP Brasil

Após a prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em março de 2026, suposições sobre as conexões políticas do empresário repercutem em meio à possibilidade de uma delação premiada. Desde então, publicações que somam mais de 36 mil interações nas redes sociais compartilham o vídeo de uma discussão entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e Alexandre de Moraes com a alegação de que eles teriam divergido sobre a quebra do sigilo de Vorcaro. Mas isso é falso: a gravação é de abril de 2025, quando a Corte analisava um recurso do Google no caso Marielle Franco.

“Ministro terrivelmente evangélico não quer a quebra do sigilo do banco Master, enquanto Moraes defende a abertura. Quem dos dois tem algo a esconder?”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook, no Instagram, no X, no TikTok e no Kwai.

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Captura de tela feita em 23 de março de 2026 de uma publicação no X (.)

Na sequência viralizada, os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça discutem sobre limites de uma medida de quebra de sigilo.

Mendonça diz: “Uma coisa é eu pegar um suspeito A, quebrar todos os e-mails dessa pessoa e vou ter as comunicações das pessoas com esse determinado indivíduo. Outra coisa é eu abrir para um número indeterminado de pessoas que falaram com outras N pessoas”.

Em resposta, Moraes aponta que o número de alvos no caso analisado “é um indeterminado determinável pela investigação” e discorda de que existam supostos abusos feitos pela polícia durante as investigações em questão.

O conteúdo circula após a prisão do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master suspeito de realizar uma fraude bilionária através da instituição, e a identificação de possíveis conexões de Vorcaro com figuras da política e do Judiciário do país.

O empresário foi transferido em 19 de março para a Superintendência da Polícia Federal (PF) em Brasília, ação que sinalizou a possibilidade de uma futura delação premiada.

No entanto, o vídeo não mostra os ministros discutindo sobre a quebra de sigilo de Daniel Vorcaro.

Divergência de 2025

Uma busca reversa por fragmentos da gravação no Google conduziu a uma publicação feita no Facebook em 17 de fevereiro de 2026 com as mesmas imagens. Na legenda, é indicado que o trecho é de uma sessão do STF realizada em abril de 2025.

“O debate ocorreu durante julgamento que discutia a possibilidade de acesso a informações de usuários não previamente identificados, a partir de recurso envolvendo uma plataforma digital”, diz o texto.

Uma pesquisa pelas palavras-chave “STF”, “Mendonça”, “Moraes” e “quebra de sigilo” levou a matérias de 23 de abril de 2025 (1, 2) que reportam a divergência entre os ministros.

Na ocasião, o STF julgava um recurso do Google contra uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que autorizava a quebra de sigilo de todas as buscas realizadas na plataforma relacionadas à Marielle Franco nos quatro dias antes do assassinato da vereadora, em 2018. A Corte discutia, então, os critérios e os limites da prática voltada para o histórico de pesquisas de usuários na internet.

Como exibido no vídeo viral, Moraes votou a favor de critérios mais amplos para a determinação da quebra de sigilo, enquanto Mendonça, preocupado com a possibilidade de “pesca probatória” — quando investigações especulativas não têm objetivo certo e buscam “provas” de forma genérica para embasar uma futura acusação —, votou por mais rigidez na aplicação da medida.

Além disso, ao contrário do que sugerem as publicações, após se tornar relator do caso Master no STF, André Mendonça reduziu o grau de sigilo do caso, que havia sido elevado a um patamar mais rigoroso por decisão do ministro Dias Toffoli. A decisão de Mendonça permitiu que a Polícia Federal realizasse uma perícia sem restrições nos aparelhos eletrônicos apreendidos.

O AFP Checamos já verificou outras alegações sobre o caso do Banco Master.

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