Em vídeo, Bolsonaro não disse que teria se alistado no exército nazista durante a Segunda Guerra

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Um vídeo em que o então deputado federal Jair Bolsonaro supostamente afirma que teria se alistado no exército de Hitler caso fosse alemão no período da Segunda Guerra Mundial voltou a circular nas redes sociais em 2022 e foi compartilhado ao menos 4,1 mil vezes. A fala de Bolsonaro foi, no entanto, tirada de contexto. A gravação foi editada para remover o trecho no qual o atual presidente diz que “a pergunta não cabe” e que “ninguém quer ir para a guerra”.

“Vejam o buraco em que a igreja evangélica brasileira se meteu! Não creio que o conteúdo deste vídeo, por mais grave que seja, poderia dissuadir os eleitores mais fanáticos deste senhor. Talvez por se sentirem representados por suas ideais e opiniões, inclusive as que ele expõe aqui acerca de Hitler e do nazismo”, indica a legenda de uma das publicações no Facebook (1, 2).

Visualizado mais de 208,9 mil vezes, o vídeo também circulou no Instagram, no Twitter (1, 2) e no TikTok, e já havia sido publicado nas redes no início de 2020 e em 2018.

Captura de tela feita em 10 de fevereiro de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

O vídeo voltou à tona após o podcaster Bruno Aiub, conhecido pelo apelido Monark, ter falado a favor da criação de um partido nazista durante uma entrevista com os deputados federais Kim Kataguiri (Podemos/SP) e Tabata Amaral (PSB/SP), em 7 de fevereiro de 2022 , no Flow Podcast, cujo episódio foi retirado do ar.

No dia seguinte, em 8 de fevereiro, o comentarista Adrilles Jorge se despediu no programa “Opinião”, da Jovem Pan News, levantando a mão direita, gesto que foi associado a uma saudação nazista, levando à sua demissão por parte da emissora. Assim como no caso anterior, o vídeo está indisponível no YouTube. 

No próprio dia 9 de fevereiro, o presidente Jair Bolsonaro se manifestou no Twitter indicando que “a ideologia nazista deve ser repudiada de forma irrestrita e permanente, sem ressalvas que permitam seu florescimento”.

“Exército de Hitler”

A gravação mostra os bastidores de um episódio de 2012 do programa de TV CQC, no qual o então deputado responde a perguntas utilizando um detector de mentiras. 

Entre os questionamentos, uma pessoa que está fora do enquadramento da câmera pergunta se o atual presidente Jair Bolsonaro teria se alistado no exército de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, ao que ele parece responder “sem problema nenhum”

No entanto, em um vídeo mais longo da mesma entrevista publicado no YouTube, no qual o áudio da gravação está mais claro do que o das publicações virais, é possível perceber que a fala de Bolsonaro foi uma resposta a outra pergunta.

Logo após a pessoa que não é filmada questionar se Bolsonaro teria se alistado no exército nazista, o entrevistador Rafael Cortez, que aparece no vídeo, confirma em voz baixa se pode refazer a pergunta para a câmera, ao que Bolsonaro responde: “Pode, sem problema nenhum. Eu tenho uma resposta muito boa para te dar inclusive”.

A confirmação de Rafael Cortez pode ser ouvida no vídeo viralizado mas, devido à baixa qualidade da gravação, pode passar despercebida pelo espectador.

Rafael Cortez faz a pergunta sobre o alistamento novamente e só então Bolsonaro responde afirmando que o seu bisavô foi “soldado de Hitler”. O vídeo compartilhado nas redes sociais é interrompido nesse momento e corta para um outro trecho da entrevista, em que o então deputado fala sobre o sistema de cotas.

Na versão mais longa publicada no YouTube, Bolsonaro continua dizendo: “A pergunta não cabe porque você não tinha o direito de se alistar ou não, você era alistado automaticamente”.

Quando o entrevistador pergunta o que ele faria se o alistamento fosse facultativo, Bolsonaro responde: “Na verdade, ninguém quer ir para a guerra, nem nós militares queremos ir pra guerra. Por isso que nós queremos melhores meios para você trabalhar para evitar uma guerra. O militar bom, o Exército bom, não faz guerra, evita guerra”.

Apesar de não ter dito que teria se alistado em seu exército, Bolsonaro elogia Hitler durante a entrevista. “Profissionalmente ele foi um grande estrategista. (...) O genocídio é outra história, tá ok. Eu não concordo, logicamente, com o que ele fez lá”, disse.