
Ex-policial federal Newton Ishii, que aparece em vídeo viral, não atuou em prisão de Lula
- Publicado em 5 de março de 2025 às 19:14
- 4 minutos de leitura
- Por AFP Brasil
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“Policial Federal que prendeu o Lula, foi ‘acusado’ e preso pelo sistema”, diz uma legenda sobreposta a um vídeo que circula no Instagram, no Facebook, no X, no Kwai e no TikTok.
Na sequência de quase dois minutos de duração, vê-se o fragmento de uma reportagem sobre a prisão do ex-policial, identificado como Newton Ishii. Em determinado momento, ele afirma que foi “condenado sem provas, sem prisão em flagrante, sem mandado de prisão”.

A legenda da publicação, por sua vez, se refere à prisão do presidente Lula, em 7 de abril de 2018, por corrupção no âmbito da Operação Lava Jato.
Lula foi solto em novembro de 2019 após o Supremo Tribunal Federal (STF) mudar seu entendimento sobre prisões em segunda instância. Em março de 2021, as condenações de Lula foram anuladas pelo STF sob o entendimento de que o caso havia tramitado na jurisdição incorreta.
No entanto, Ishii não foi o responsável pela prisão de Lula e tampouco foi detido após o episódio.
Detenção anterior e aposentadoria
Em um trecho da peça de desinformação, o ex-policial chama o jornalista pelo nome “Cabrini”.
Uma busca no Google pelos termos “Newton Ishii” e “Cabrini” levou a um texto do Conexão Repórter, programa da emissora SBT, de 29 de abril de 2018, com uma imagem de Ishii semelhante à vista na sequência viral.
O texto informa sobre uma entrevista exclusiva do então policial federal aposentado Newton Ishii para o jornalista Roberto Cabrini.
No canal do programa no YouTube foi possível identificar a íntegra da entrevista, dividida em duas partes (1, 2) e publicada em 1º de maio de 2018.
A reportagem aborda a vida profissional e pessoal de Ishii, apelidado de “Japonês da Federal”, que atuou no Núcleo de Operações da Polícia Federal de Curitiba e ficou conhecido nacionalmente por conduzir acusados da Operação Lava Jato.
Na primeira parte da reportagem, aos 22 minutos e 50 segundos, é informado que o ex-policial havia sido preso preventivamente em 2003 após ser acusado de facilitação de contrabando em Foz do Iguaçu.
Ishii permaneceu detido por quatro meses devido à Operação Sucuri, que investigava contrabando na fronteira da Argentina, Brasil e Paraguai.
Logo adiante, aos 25 minutos e 22 segundos de reportagem, inicia-se o trecho visto nas peças de desinformação em que ele comenta sobre o episódio:
Após esse momento, a reportagem informa sobre a segunda detenção de Ishii, em 2016, quando saiu a sua condenação de quatro anos e dois meses pelo mesmo processo.
Outras reportagens da imprensa nacional também informaram sobre a prisão do então agente (1, 2, 3).
Além de Ishii ter sido preso antes mesmo da prisão de Lula, em abril de 2018, ele também estava aposentado havia dois meses quando o presidente foi detido, como é informado na reportagem de Cabrini e em outras notícias (1, 2).
Em julho de 2020, Ishii perdeu o seu cargo e foi condenado a pagar uma multa de R$ 200 mil pelo processo da Operação Sucuri.
A reportagem do Conexão Repórter lista alguns nomes de pessoas que foram conduzidas por Ishii na Lava Jato, mas Lula não está entre eles.
Na segunda parte da entrevista, o então agente chega a comentar sobre a prisão do presidente, ao ser perguntado sobre o assunto. Ele então a classifica como “normal”.
A AFP registrou a condução do presidente à Polícia Federal de Curitiba e, pelas imagens, tampouco vê-se Ishii entre os agentes:

As publicações virais também abordam na legenda sobreposta ao vídeo que Ishii “teve seu filho encontrado morto com ‘indícios de suicidio’”.
Na entrevista a Cabrini, o policial aposentado efetivamente fala sobre a morte do filho, em 2006.
Referências
- Notícia sobre a entrevista de Newton Ishii
- Programa Conexão Repórter de 1º de maio de 2018 (1, 2)
- Notícias sobre a prisão de Newton Ishii (1, 2, 3)
- Notícias sobre aposentadoria de Newton Ishii (1, 2)
- Notícia sobre a perda de cargo de Newton Ishii