Vídeo de 2021 é usado fora de contexto para alegar que os EUA romperam relações com o Brasil

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  • Publicado em 4 de maio de 2023 às 22:11
  • 3 minutos de leitura
  • Por AFP Brasil
Uma reportagem de 2021 sobre uma iniciativa de congressistas dos Estados Unidos circula fora de contexto como base para afirmar que o país rompeu relações diplomáticas com o Brasil. As postagens, visualizadas mais de 37 mil vezes nas redes sociais desde pelo menos 26 de abril de 2023, alegam que a suposta decisão valerá enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estiver na Presidência. Mas a notícia é, na verdade, de outubro de 2021, ano em que o Brasil era governado por Jair Bolsonaro (PL). Além disso, a proposta não foi efetivada e as relações bilaterais nunca foram rompidas.

“Estados Unidos, rompem relação com o Brasil enquanto Lula for presidente... o que dizem os que fizeram o ‘L’??? Silêncio total”, diz uma das publicações compartilhadas no Twitter, no TikTok, no Kwai, no Helo e no Facebook.

A alegação circula junto a um vídeo no qual a apresentadora de um telejornal afirma que “congressistas americanos pedem a Joe Biden que feche as portas para o Brasil até que outro presidente seja eleito”. Ela é complementada por um outro jornalista, que comenta sobre uma carta assinada por 64 parlamentares para que o mandatário norte-americano “revogue o status de aliado militar concedido ao governo brasileiro por Donald Trump”.

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Captura de tela feita em 4 de maio de 2023 de uma publicação no Twitter ( .)

Uma busca reversa no Google por fragmentos do vídeo viral levou a uma reportagem mais longa, publicada pela TV Cultura em seu canal no YouTube em 15 de outubro de 2021, quando o Brasil era governado por Jair Bolsonaro (2019-2023).

A notícia relata que um grupo de congressistas havia entregue uma carta ao presidente norte-americano Joe Biden sugerindo que seu governo voltasse atrás na oferta para que o Brasil integrasse a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Em um trecho da reportagem cortado das publicações virais, é narrado: “O democrata Hank Johnson, que redigiu a carta, faz uma acusação grave. Ele alerta para o risco de os Estados Unidos estarem fortalecendo o Exército brasileiro para um golpe de Estado liderado por Bolsonaro”.

Na época, a carta enviada pelos parlamentares a Biden também repercutiu na imprensa brasileira (1, 2).

A pressão exercida pelos parlamentares não resultou em um recuo da oferta de cooperação militar nem em qualquer rompimento das relações diplomáticas.

Uma pesquisa pelos termos “rompimento relações diplomáticas”, “Estados Unidos” e “Lula” não levou a qualquer informação de ruptura dos laços bilaterais no atual governo.

No site do Itamaraty, afirma-se que “as relações bilaterais são abrangentes e institucionalizadas, fundadas em sólido histórico de parceria” e que, “em 2024, será celebrado o bicentenário das relações diplomáticas entre os dois governos”.

Já na página do Departamento de Estado, órgão do governo norte-americano responsável pelas relações exteriores, há um breve histórico da relação com o Brasil, sem qualquer registro de ruptura dos laços entre os dois países.

Lula fez uma visita oficial a Washington em 10 de fevereiro de 2023, quando foi recebido por Biden. Na ocasião, os dois anunciaram a cooperação na promoção de uma agenda de direitos humanos, no fortalecimento da democracia e no enfrentamento à crise climática, entre outros temas.

Em 1° de maio, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Linda Thomas-Greenfield, desembarcou no Brasil com o objetivo de estreitar as relações bilaterais, superando as divergências em torno da guerra entre Rússia e Ucrânia. A diplomata foi recebida pela primeira-dama, Janja Lula da Silva, no Palácio do Planalto.

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