Bomba de combustível em um posto de gasolina em Juatuba, Minas Gerais, em 22 de outubro de 2021 ( AFP / Douglas Magno)

Tabela que compara poder de compra de gasolina em vários países contém dados imprecisos

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Uma tabela compartilhada milhares de vezes nas redes sociais desde, ao menos, 9 de março de 2022 mostra, supostamente, o poder de compra em relação à gasolina no Brasil, nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Itália e na Argentina. No contexto da alta no preço dos combustíveis, a imagem lista o que seria o valor da gasolina, do salário mínimo e do tanque de 35 litros e, então, calcula a porcentagem referente ao poder de compra em cada país. Contudo, a tabela contém algumas imprecisões.

“Gasolina. Poder de compra no mundo”, lê-se no título das imagens compartilhadas no Facebook, Instagram e Twitter.

Outra versão da tabela, com valores diferentes nos campos “Brasil - 35 litros” e “Estados Unidos - gasolina”, também circula nas redes sociais. Essas cifras também não correspondem à realidade.

Captura de tela feita em 17 de março de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

O conteúdo começou a circular em um contexto de alta no preço dos combustíveis no país. Em 10 de março de 2022, a Petrobras anunciou um aumento nos preços de venda da gasolina e do diesel para as distribuidoras. A medida, segundo um comunicado da companhia, é uma consequência do “aumento global dos preços do petróleo e seus derivados” causado pela guerra entre Rússia e Ucrânia.

Por meio de fontes oficiais dos países listados na tabela, o Checamos analisou cada um dos valores de salário mínimo, gasolina e porcentagem da renda sobre o preço do tanque de 35 litros. 

Foram consideradas todas as casas decimais nos cálculos, aproximando os valores somente nos resultados finais. O conversor do Banco Central do Brasil foi utilizado para transformar as cifras em real com base no câmbio de 17 de março de 2022.

Brasil e Argentina

O salário mínimo que vigora no Brasil não é de R$ 1.100 por mês, como é visto nas publicações, mas de R$ 1.212 desde 1 de janeiro de 2022. Já o preço médio do litro da gasolina comum no país, em consulta realizada em 17 de março de 2022 e relativa ao mesmo mês, não é de R$ 7,80, mas R$ 6,64, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Como resultado, o valor médio do tanque de 35 litros é de R$ 232,26, o que corresponde a 19,16%, e não 25% do salário mínimo.

Os valores referentes à Argentina também diferem dos praticados no país. 

A partir de fevereiro de 2022, o salário mínimo passou a ser equivalente a R$ 1.529,22 por mês, ou seja, R$ 228,78 a menos que o valor descrito na tabela. Já o preço do litro da gasolina corresponde a R$ 5,09, quase dois reais a mais do que o valor viralizado. Assim, a porcentagem do salário argentino sobre o preço do tanque - R$ 178,24 - é de 11,66%, não 6,2%.

Estados Unidos e Reino Unido

No caso dos Estados Unidos e do Reino Unido, as porcentagens apontadas pela imagem viral se aproximam dos apurados pelo Checamos. 

Nos EUA, o salário mínimo é estabelecido por hora, com o valor de US$ 7,25. Considerando uma jornada de 40 horas semanais e 22 dias úteis por mês, isso corresponde a R$ 6.476,72. O preço médio do litro de gasolina equivalia em 14 de março a R$ 5,78. Nesse sentido, um tanque de 35 litros - R$ 202,52 - representa 3,13% do salário mínimo norte-americano.

Uma bomba de gasolina em um posto em Washington DC, em 13 de março de 2022 ( AFP / Stefani Reynolds)

Assim como nos Estados Unidos, o salário mínimo no Reino Unido é estabelecido por hora. Utilizando os mesmos parâmetros anteriores, esse valor totaliza R$ 10.472,48 ao mês e um litro de gasolina custa em média R$ 10,61, de modo que 35 litros do combustível - R$ 371,64 - equivalem a 3,55% do salário mínimo britânico.

Itália

Já no caso da Itália, o valor médio de fevereiro de 2022 para o litro de gasolina corresponde a R$ 10,37, fazendo com que 35 litros de combustível custem R$ 363,10. No entanto, diferentemente do que apontam as publicações virais, o país não tem um salário mínimo nacional vigente. Há um projeto de lei sobre o tema, apresentado em abril de 2021, mas que ainda segue em curso no Senado. 

Consultado pelo Checamos, Mauro Rochlin, economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), explicou que o uso do salário mínimo como critério de comparação entre os países referidos pode ser “tendencioso”. Isso porque, de acordo com o especialista, “a diferença de renda é muito grande no caso da comparação entre países ricos [e] países pobres”, o que “distorce” os resultados.

Rochlin ressaltou que a maneira mais adequada de avaliar o poder de compra nesse caso seria a partir da comparação da renda média dos proprietários de veículos, já que “esse universo define melhor os mais diretamente afetados”.  No entanto, “como não há dados precisos a respeito, é difícil fazer a comparação”. Nesse sentido, alguns conteúdos acabam refletindo “pesquisas viesadas”, como as que tomam o salário mínimo como parâmetro, concluiu o professor.

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