Comparação entre preço da gasolina em 2008 e em 2022 desconsidera efeitos do câmbio e inflação

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Um gráfico que compara os valores do barril de petróleo e os preços da gasolina nos governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do atual mandatário Jair Bolsonaro foi compartilhado pelo menos 8 mil vezes nas redes sociais desde 11 de março de 2022. No entanto, a comparação é enganosa. Segundo especialistas consultados pela AFP, esse tipo de correlação intertemporal deve considerar mudanças no câmbio e na inflação, já que esse último elemento afeta o poder de compra dos consumidores.

“Nenhuma desculpa é maior do que a verdade: Bolsonaro é incompetente”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2), no Twitter (1, 2) e no Instagram (1, 2).

Captura de tela feita em 19 de março de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

No gráfico viral é indicado, em duas frases nas laterais, que os preços da gasolina nos governos Bolsonaro e Lula correspondem, respectivamente, às datas de 11 de março de 2022 e de 3 de julho de 2008. Os valores podem ser considerados, de maneira geral, corretos. 

O ano de 2008 foi marcado por uma intensa volatilidade no preço do petróleo, que atingiu seu auge em julho, antes de sofrer uma forte queda. Uma série de fatores, incluindo tensões internacionais, influenciaram no cenário. 

Segundo o Anuário Estatístico de 2009 da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço médio para o barril de petróleo do tipo Brent e WTI em 2008 foi, respectivamente, US$ 99,04 e US$ 98,58.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) disponibiliza uma série histórica com os valores para a cotação dos dois principais tipos de petróleo, Brent e WTI, nomes que fazem referência à origem do combustível e onde ele é negociado. De acordo com os dados, em 11/03/2022, o preço do barril do petróleo WTI foi de US$ 109,31 e o do petróleo Brent na mesma data, de US$ 118,11. Uma média dessas duas cotações resulta em US$ 113,71.

Com relação ao preço do litro da gasolina, os valores médios mensais podem ser consultados no Sistema de Levantamento de Preços da ANP. Em uma consulta feita em 18 de março de 2022, o sistema indicava que o preço médio da gasolina comum no Brasil foi de R$ 6,87, um valor menor do que o de R$ 7,50 indicado na imagem. No entanto, o sistema da ANP também informa que o combustível teve preço máximo de R$ 8,77.

Já em 3 de julho de 2008, os barris de petróleo WTI e Brent chegaram, respectivamente, a US$ 145,31 e US$ 143,95, segundo registros do Ipea (1, 2). Reportagens publicadas nesse dia reportam que o valor do barril chegou, de fato, a passar da marca dos US$ 146 (1, 2), como indicado no conteúdo viralizado.

No site da ANP, é possível constatar que a média do preço da gasolina comum para julho de 2008 foi de R$ 2,49, chegando, no máximo, a R$ 3,30, valores, portanto, compatíveis ao que é apresentado no gráfico.

Imprecisões

No entanto, especialistas consultados pela AFP alertaram que, embora os valores indicados não sejam falsos, o fato de não terem sido ajustados pela inflação, pelo poder de compra e pelo câmbio compromete a comparação. 

“Do ponto de vista técnico, as comparações intertemporais sobre petróleo e derivados devem levar em consideração as mudanças no câmbio, na inflação e a paridade do poder de compra do salário”, avaliou William Nozaki, coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

Para André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, o gráfico é “impreciso”. “A imprecisão decorre do fato de que existem muitas outras variáveis em jogo ali [nos preços do gráfico], e não só a política de preços da Petrobras”

“A comparação não faz sentido. Ela não é falsa, mas é enganosa”, disse Daniel Sousa, professor de Economia do Ibmec. “Afinal, 2 reais em 2008 não são a mesma coisa do que 2 reais em 2022. São poderes de compra completamente diferentes em função da inflação”.

Corrigindo os preços pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o valor do litro de gasolina em julho de 2008, R$ 2,50, hoje seria o equivalente a R$ 5,49. A diferença de valores, portanto, seria bem menor do que a indicada nas publicações viralizadas.

Outro elemento que interfere na comparação, de acordo com Sousa, é a taxa de câmbio em ambos os momentos. 

Em 3 de julho de 2008, segundo registros do Ipea, o valor do dólar era de R$ 1,60. Já em 11 de março de 2022, a moeda americana era cotada a R$ 5,02.

Em um cenário hipotético que considera somente a cotação do dólar, portanto, o barril de US$ 146,08 do governo Lula valia R$ 233,73 com a cotação de 2008. Já com o câmbio de 2022, o barril de US$ 113,89 do governo Bolsonaro vale R$ 571,72. 

“A desvalorização do real [em relação ao dólar] impacta no preço da gasolina, aumentando o preço do produto em reais”, afirma Sousa.

Para Perfeito, uma comparação mais apropriada deve considerar a quantidade de gasolina que pode ser comprada com um salário mínimo em cada um dos dois governos mencionados no gráfico. 

Seguindo esse parâmetro, calcula-se que, com o salário mínimo de R$ 415,00 de 2008 era possível comprar 166 litros de gasolina considerando o preço médio de R$ 2,50 mencionado na imagem. Em março de 2022, com o salário mínimo de R$ 1.212,00, pode-se comprar 161,6 litros do combustível considerando o preço de R$ 7,50.

[A imagem viralizada] é completamente enganosa porque ela coloca basicamente que todos os cenários nacionais e internacionais são estáticos e o que muda apenas é o barril de petróleo e o valor da gasolina na bomba. Isso é irreal”, acrescentou Igor Lucena, economista e doutor em Relações Internacionais.

Em 2008, por exemplo, a crise financeira esteve diretamente relacionada com a alta do barril de petróleo. Já em 2022, o conflito na Ucrânia e as sanções à Rússia, uma das maiores produtoras de petróleo no mundo, têm impacto na cotação do combustível, explicou Lucena. O economista pontuou:

Política de preços

Desde 2016, a Petrobras adota uma política de preços baseada na paridade com o mercado internacional, conhecida como PPI. A medida foi implementada durante o governo do ex-presidente Michel Temer (2016-2018). Isso significa que os preços praticados pela empresa no Brasil passaram a ser revisados com mais frequência para refletir o preço internacional dos combustíveis.

“A principal consequência dessa política tem sido o aumento da flutuação e da volatilidade de preços”, explicou Nozaki.

Com essa política de preços, mais atrelada ao mercado global, o consumidor acaba sendo mais afetado por fatores como a cotação internacional, tanto do preço do barril quanto do valor do próprio dólar, explicou Sousa.

O valor do combustível no Brasil “era de fato menos volátil [em 2008], porque se tinha uma política de preços que não andava em relação aos preços externos. Em compensação, durante esse período, isso também gerou situações ruins para a empresa como um todo”, analisou Perfeito.