A Amazônia é o “pulmão do mundo”?

A Floresta Amazônica, atingida por vários focos de incêndio, tem um papel essencial na regulação do clima regional e mundial. A sua destruição, mesmo que parcial, também pode impactar na temperatura e na biodiversidade. Em todo o mundo tem sido dito - inclusive por celebridades e políticos, como o presidente francês Emmanuel Macron - que a Amazônia é o “pulmão do mundo”, que absorve “14% do CO2 mundial” e “produz 20% do nosso oxigênio”. Mas estes dados estão corretos?

Captura de tela da publicação no Twitter do presidente francês, Emmanuel Macron, feita em 30 de agosto de 2019

Em um tuíte publicado em 26 de agosto por Emmanuel Macron, e que teve mais de 9.000 interações até a data, o presidente afirmou: “A Amazônia absorve 14% do CO2 mundial. A perda do primeiro pulmão do planeta é um problema mundial”.

Alguns dias antes, Macron havia dito em outro tuíte, compartilhado 16.500 vezes, que a Floresta Amazônica, “pulmão do nosso planeta”, gerava “20% do nosso oxigênio”.

A equipe de verificação da AFP entrevistou vários especialistas que explicaram por que essas afirmações são imprecisas.

A Amazônia efetivamente absorve 14% do CO2 mundial?

O especialista em florestas Philippe Ciais, integrante do Laboratório de Ciências do Clima e Meio Ambiente na França (LSCE), estima que, por enquanto, a Amazônia absorve entre 500 milhões e um bilhão de toneladas de carbono por ano nas áreas intactas. Considerando a quantidade de CO2 presente na atmosfera - 800 bilhões de toneladas - a cifra fornecida por Macron é elevada demais.

Contudo, ele concorda com o papel que a Amazônia representa na absorção mundial de CO2 através da vegetação e dos solos - os oceanos também absorvem uma grande parte. Os cientistas do LSCE estimam que a Floresta Amazônica seja responsável por entre 10% e 20% dessas absorções.

“A expressão ‘14% de absorção do CO2 mundial’ talvez não seja uma linguagem científica muito precisa, mas demonstra o peso da Amazônia na absorção de CO2”, considerou Ciais em declarações à equipe de verificação da AFP.

Para entender a importância da Amazônia na absorção de CO2 presente na atmosfera, poderia-se comparar a quantidade de CO2 absorvida por essa floresta com o CO2 emitido pelas energias fósseis. Neste caso, a Amazônia absorve 5% das emissões de CO2 fóssil, o que equivale, por exemplo, “a metade das emissões da Europa”, assinalou Ciais.

“Se a Amazônia fosse desmatada, não apenas estes sumidouros de carbono se perderiam, como se transformaria em uma fonte de CO2 para a atmosfera”, acrescentou.

A Amazônia produz “20% do nosso oxigênio”?

“Os ecossistemas atuais contribuem muito pouco para o oxigênio na atmosfera. A maior parte deste oxigênio provém de matérias orgânicas enterradas em nosso solo durante milhares de milhões de anos”, explicou Neal Blair, professor de Engenharia Ambiental da Universidade de Northwestern (Estados Unidos).

Baseando-se neste estudo de 1998 da revista Science, ele considera que a Floresta Amazônica produz “cerca de 6%” do oxigênio do planeta.

O pesquisador francês Philippe Ciais concorda: “A cifra de 20% é exagerada: a fotossíntese global das plantas terrestres emite oxigênio na atmosfera, mas a Amazônia deve emitir de 5% a 6% do oxigênio atmosférico”.

Em uma postagem de um blog publicada em 24 de agosto de 2019, Yadvinder Malhi, professor de Ciência dos Ecossistemas na Universidade de Oxford (Reino Unido), detalha os complexos cálculos que permitem assinalar que a Amazônia é responsável por cerca de 9% da fotossíntese global. Entretanto, também explica que ela “consome quase tanto oxigênio quanto produz”.

Ambas as porcentagens não devem ser confundidas, já que uma “floresta produz oxigênio através de sua fotossíntese, mas as plantas e os micróbios do solo consomem uma quantidade similar de oxigênio que é produzido a cada ano”, assinala Ciais.

“Há várias razões para se preocupar com os recentes picos de desmatamento na Amazônia - o carbono, o clima, a água, a biodiversidade e as populações. Mas o oxigênio, graças a Deus, não é algo que devamos nos preocupar”, assegurou Jonathan Foley, diretor do Instituto de Meio ambiente da Universidade de Minnesota (Estados Unidos), em uma série de tuítes em 23 de agosto.

Concordando com Ciais e Blair, considera que a porção do oxigênio mundial produzido pela Amazônia seja da ordem “de 6%, inclusive podendo ser menos”.

O presidente francês não foi o único a empregar essa formulação errônea. O jogador português de futebol Cristiano Ronaldo também publicou em sua conta no Instagram que a Floresta Amazônica produzia 20% do oxigênio do planeta, assim como o ator americano Leonardo DiCaprio.

As três publicações, que usaram imagens antigas para ilustrá-las, receberam 15 milhões de curtidas desde 22 de agosto. Alguns internautas fizeram eco destas formulações (1, 2, 3, 4, 5).

A expressão “pulmão do planeta” é adequada?

É difícil definir precisamente o que engloba a expressão “pulmão do planeta”, usada por vários meios de comunicação, inclusive pela AFP. Isso significa que é a principal floresta produtora de O2? Ou que se trata da maior floresta em termos de absorção de CO2?

No que se refere à absorção do CO2, o pesquisador Jean-Pierre Wigneron, do Inra, recorda que embora os “ecossistemas da Amazônia efetivamente capturem uma quantidade enorme de CO2, também emitem uma grande quantidade”. Segundo ele, o importante é observar o balanço líquido, ou seja, o ganho (captura de CO2) menos a perda (emissão de CO2).

A respeito disto, não existem cifras exclusivas para a Amazônia. Mas sim da biomassa das florestas tropicais da América do Sul, da qual a Amazônia representa de 70% a 80%.

De acordo com dados de satélite, “as florestas tropicais da América do Sul emitem tanto carbono quanto capturam”, explicou Wigneron à equipe de verificação da AFP.

Estas emissões, “vinculadas em grande parte ao desmatamento e à mortalidade, frequentemente após as secas”, fazem com que o balanço de carbono líquido das florestas tropicais da América do Sul seja “globalmente neutro nos 10 últimos anos”.

Diferentemente do que poderíamos pensar, “os sumidouros de carbono das superfícies terrestres atualmente se encontrariam nas florestas boreais e temperadas”, assinalou o pesquisador francês. Isso significa que essas florestas absorvem mais carbono do que emitem.

“Consideramos que a reserva de carbono [a biomassa] das florestas boreais aumenta e é isso que limpa a atmosfera”. Neste sentido, a Amazônia não seria o “primeiro pulmão do mundo”.

Mas se a expressão “primeiro pulmão do mundo” busca simplesmente “destacar o importante papel dos trópicos e da Amazônia no equilíbrio em jogo em nosso planeta”, então a afirmação está correta, diz o pesquisador.

Ele lembrou que, do total do carbono contido nas florestas do mundo, 30% está armazenado na Floresta Amazônica e que, consequentemente, “cada hectare queimado liberará 180 toneladas de carbono na atmosfera”, que equivalem às emissões de CO2 fóssil de 120 pessoas em um país como a França em um ano.

“Os dados científicos disponíveis sugerem que a absorção por parte das florestas intactas na Amazônia hoje compensa mais ou menos as emissões do desmatamento, mas se o desmatamento aumentar [...] o sistema pode facilmente se desequilibrar para se tornar no futuro uma fonte de CO2, que se somaria às emissões produzidas pelo uso de carbono fóssil para acelerar o aquecimento global”, advertiu Ciais.