Vídeo de mulheres seminuas é de 2019, não de comemoração por eleição de Boric no Chile

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Um vídeo em que manifestantes seminuas sobem na estátua do general Manuel Baquedano, em Santiago, foi visualizado dezenas de milhares de vezes em redes sociais desde o último dia 21 de dezembro. Segundo as publicações, as imagens mostrariam como a esquerda celebrou a vitória do ex-líder estudantil Gabriel Boric na eleição presidencial chilena de 19 de dezembro de 2021. Mas isso é falso: o registro foi feito em outubro de 2019, durante uma onda de protestos que pedia mudanças em estruturas herdadas da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). 

“A esquerda ganhou no Chile. Vejam as bizarras comemorações”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3), Twitter (1, 2, 3) e Instagram, dois dias após Gabriel Boric derrotar o advogado José Antonio Kast. 

“É isso que acontece [com] quem elege esquerda, Bolsonaro hoje é a única opção pra barrar isso”, comentou outro usuário, ao publicar o vídeo de 28 segundos.

Captura de tela feita em 22 de dezembro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

A gravação compartilhada nas redes não é, contudo, atual. 

Uma busca reversa no Google por um dos fragmentos do vídeo mostra que uma imagem muito semelhante foi publicada em 26 de outubro de 2019 pelo portal chileno Cultura Veintiuno, em um artigo intitulado: “Fotos inéditas da histórica mobilização no Chile”

Coincidem em ambos os registros: as roupas e a disposição das manifestantes, a pixação “No + silencio" na base do pedestal e o cartaz branco com dizeres em vermelho amarrado na parte de trás da estátua. 

No texto, a imagem é creditada ao fotógrafo Héctor González de Cunco. Uma busca no Google por esse nome leva ao perfil de González de Cunco no Instagram, onde ele publicou a mesma imagem em 23 de outubro de 2019, detalhando que o registro mostra uma performance do coletivo Yeguada Latinoamericana

 
 
 
 
 
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Uma pesquisa pelo nome desse coletivo levou a uma publicação no Facebook do mesmo vídeo viralizado nas redes, feita também em 23 de outubro de 2019.

“Feministas do grupo Yeguada Latinoamericana, que dizem ser contra a ‘coisificação’ da mulher, realizam performance na Praça Itália, em meio às massivas manifestações”, diz a legenda da publicação. 

Em outubro de 2019, milhares de manifestantes protestaram no Chile, no que foi considerada a mais intensa revolta social do país em pelo menos três décadas. A mobilização, que começou como uma oposição a um aumento no preço da passagem de metrô, se tornou heterogênea, exigindo principalmente melhorias nas aposentadorias e mais recursos para a saúde e para a educação pública. 

Monumento retirado

Além disso, o vídeo compartilhado nas redes não poderia ter sido gravado após a eleição de Gabriel Boric em 19 de dezembro de 2021 porque o monumento visto no centro da imagem não está mais na Praça Itália desde março deste ano

Após manifestantes incendiarem o monumento e, por várias vezes, tentarem derrubá-lo - em uma batalha simbólica pelo controle do lugar que concentra os protestos no Chile -, a estátua foi removida para restauração e ainda não foi recolocada

Fotos feitas pela AFP em 17 de dezembro de 2021, apenas dois dias antes do resultado da eleição, mostram somente o pedestal do monumento, na Praça Itália. No dia do resultado, apoiadores de Boric também foram fotografados pela AFP de pé no local onde antes ficava a estátua. 

Homem sobe em pedestal na Praça Itália, Santiago, em 17 de dezembro de 2021 ( AFP / MAURO PIMENTEL)
Apoiadores do presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, sobre o pedestal na Praça Itália, em Santiago, em 19 de dezembro de 2021 ( AFP / MAURO PIMENTEL)

 

 

Outros dois vídeos que também circulam ao menos desde outubro de 2019 foram igualmente associados à vitória de Boric, em publicações verificadas pela AFP.