Moinhos de vento em Campo de Criptana (Castilla-La Mancha, Espanha), município que faz parte da rota turística dedicada à obra de Miguel Cervantes, em 10 de janeiro de 2005 ( AFP / Pierre-Philippe Marcou)

A suposta citação de Dom Quixote sobre os “três gigantes” não aparece na obra de Cervantes

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Uma citação sobre os “três gigantes” enfrentados por Dom Quixote, “o medo, a injustiça e a ignorância”, foi compartilhada centenas de vezes em redes sociais ao menos desde 2014, atribuindo o fragmento à obra de Miguel Cervantes. No entanto, o trecho não aparece nas aventuras do “engenhoso cavaleiro”, e um especialista na obra de Cervantes negou à AFP que a frase pertencesse à renomada história. 

“Luto contra três gigantes, caro Sancho”, começa o texto viralizado. “São eles: o medo, que tem raízes fortes e que agarra os seres e os prende para que não ultrapassem o muro do socialmente permitido ou admitido; o outro é a injustiça, que está por trás do mundo disfarçado de justiça geral, mas que é uma justiça estabelecida por poucos para defender interesses mesquinhos e egoístas”, segue a mensagem

As publicações terminam descrevendo o terceiro “gigante”: “a  ignorância, que também está vestida ou disfarçada de conhecimento e que engana os seres para que acreditem saber quando não sabem realmente e que pensam que têm razão quando não o são. Essa ignorância, disfarçada de conhecimento, causa muitos danos e impede os seres de irem mais longe na linha de realmente se conhecerem e se conhecerem”.

Captura de tela feita em 21 de dezembro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

A suposta fala de Dom Quixote segue circulando em 2021 (1, 2, 3) e foi amplamente compartilhada nos últimos anos (2020, 2019, 2018, 2017, 2016, 2015, 2014), principalmente em uma versão mais curta. O conteúdo também foi largamente reproduzido em espanhol e inglês

No entanto, em comentários neste blog e neste portal, usuários advertem que o trecho viralizado não faz parte da obra de Dom Quixote. 

De fato, a equipe de checagem da AFP consultou versões digitais (1, 2, 3, 4) da obra de Cervantes e não localizou em nenhuma o trecho compartilhado nas redes. No capítulo VIII da primeira parte do primeiro volume (1605), Dom Quixote luta com moinhos de vento ao confundi-los com gigantes, mas não há nenhum parágrafo semelhante ao viralizado. 

Citação não é “nem remotamente” de Dom Quixote 

O professor de Filologia Hispânica Javier San José Lera, da Universidade de Salamanca, disse no último dia 15 de dezembro à AFP que o trecho “não pertence - nem remotamente - ao Quixote de Cervantes”

“Embora Dom Quixote seja um louco com intervalos lúcidos, sua lucidez nunca o faz dizer uma frase como essa da falsa citação, que implica um grau de consciência sobre o sentido simbólico dos famosos moinhos”, disse San José Lera. Para Dom Quixote, “os moinhos são gigantes, gigantes de romances de cavalaria, não ameaças abstratas”, comentou o especialista. 

Sobre pecados e gigantes 

No capítulo VIII do segundo volume (1615) da principal obra de Cervantes, um diálogo entre Dom Quixote e Sancho pode lembrar o trecho viralizado, mas está distante da aventura dos moinhos e se refere à religião cristã: 

“Matando os gigantes, matemos o orgulho; combatamos a inveja, com a generosidade; a ira, com a placidez de um ânimo tranqüilo; a gula e o sono, com as curtas refeições e as longas vigílias; a luxúria e a lascívia, com a lealdade que guardamos às que fizermos senhoras dos nossos pensamentos; a preguiça, com o andar por todas as partes do mundo, procurando as ocasiões que nos possam fazer e nos façam, além de cristãos, gloriosos cavaleiros”.

Sobre essa passagem, o professor San José Lera explicou que Dom Quixote refletia sobre as virtudes do cavaleiro cristão, “a partir da memória de suas leituras de romances de cavalaria”. Nessas histórias, “os cavaleiros virtuosos enfrentam e matam os gigantes, que são sempre um emblema do orgulho” e, então, derrotam esse pecado capital ao derrotar os gigantes.

“Dom Quixote está incluído entre os cavaleiros andantes (‘nossas obras’, diz, referindo-se às dos cavaleiros e incluindo-se no grupo)”, destacou o especialista. “O resto da passagem consiste em uma aplicação do catecismo cristão que confronta os pecados capitais com as virtudes, em uma lista que se memoriza na aprendizagem infantil do catecismo: contra a preguiça, a diligência; contra a inveja, a caridade; contra a ira, a paciência; contra a luxúria, a castidade”, e o protagonista de Cervantes “o aplica ao exercício de cavalaria - ideal do cavaleiro cristão - com a intenção de alcançar a ‘boa fama’”

“‘Medo’, ‘injustiça’ e ‘ignorância’ não têm nada a ver com essa série do catecismo cristão. É, obviamente, uma reinvenção interessada, que põe na boca de Dom Quixote afirmações que o romance não contém”, resumiu San José Lera.