Uma foto da diretora de fotografia Halyna Hutchins é exibida durante vigília em sua homenagem em Burbank, Califórnia, em 24 de outubro de 2021 ( AFP / David McNew)

Halyna Hutchins não estava produzindo documentário sobre pedofilia em Hollywood

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Publicações compartilhadas centenas de vezes em redes sociais desde 24 de outubro de 2021, junto à captura de tela de um artigo, sugerem que a morte de Halyna Hutchins, a diretora de fotografia que foi baleada pelo ator Alec Baldwin em um set de filmagem, está associada a sua participação em um documentário sobre círculos de pedofilia em Hollywood. Mas isso é falso. Um dos agentes de Hutchins disse à AFP que a cinegrafista não estava escalada para trabalhar em nenhum documentário e o site que publicou o artigo, originalmente em inglês, adverte sobre a falsidade do conteúdo. 

“O próximo projeto de Halyna Hutchins era um documentário sobre círculos de pedofilia em Hollywood”, diz, em tradução livre do inglês, o título do artigo cuja captura de tela foi compartilhada no Facebook (1, 2, 3) e Twitter (1, 2, 3). 

Na imagem que circula nas redes não é possível ler o nome do site onde o texto foi publicado, mas uma busca no Google por seu título mostra que o texto foi difundido originalmente pelo portal World Grey News (WGN), em 24 de outubro de 2021.

Captura de tela feita em 3 de novembro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

A captura de tela também circula em publicações em inglês e espanhol

Nos comentários, alguns usuários sugerem que a suposta participação da diretora no documentário seria o motivo de sua morte, relacionando-a à teoria conspiratória QAnon e a grupos de elite de Hollywood.  

O movimento QAnon surgiu em 2017 em um fórum na internet e acredita que importantes políticos dos Estados Unidos estão envolvidos em um “Estado profundo” e em uma sociedade secreta de pedófilos adoradores de Satã. Aqueles que acreditam na teoria também defendem que o ex-presidente Donald Trump foi recrutado por graduados generais militares para participar das eleições de 2016 e desmascarar essa suposta conspiração criminosa. 

Hutchins, de 42 anos, faleceu após ser baleada durante as gravações do filme “Rust”, em 21 de outubro de 2021, no Novo México, nos Estados Unidos, quando Baldwin estava ensaiando tirar uma pistola de seu suporte. O diretor do filme, Joel Souza, também foi ferido no ombro. 

Mas a alegação sobre o documentário é falsa. 

“Halyna não estava trabalhando, não estava associada ou em contato para nenhum documentário futuro. Seus únicos projetos propostos eram filmes narrativos tradicionais”, disse Craig Mizrahi, um dos agentes de Hutchins, à AFP. 

Halyna Hutchins não havia mencionado nenhum documentário sobre círculos de pedofilia em Hollywood em sua conta no Instagram, onde frequentemente falava sobre seus projetos. Sua página no IMDb - base de dados online sobre cinema - também não indica nenhum plano do tipo. O único documentário no qual ela trabalhou recentemente, “Singularity Song”, é sobre buracos negros no espaço. 

Site de notícias falsas

Além disso, uma análise do portal WGN, onde foi publicada a suposta notícia em inglês, mostra que o site se define como uma página de “notícias de brincadeira”, que permite que usuários criem seus próprios artigos falsos através do chamado “Gerador de Fake News”.

De fato, na parte de baixo do texto sobre Halyna Hutchins há a advertência: “O artigo principal é FALSO”, mensagem que não aparece nas capturas de tela compartilhadas nas redes. 

Redes sociais como o Facebook e o YouTube têm tomado medidas para bloquear conteúdos relacionados à teoria QAnon, que tem sido associada a diversos incidentes violentos. 

A equipe de checagem da AFP já verificou outras alegações incorretas associadas ao movimento conspiratório.