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A Força Aérea dos EUA não utilizou um "avião inflável" no Afeganistão para simular evacuações

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Imagens de um avião da Força Aérea norte-americana no aeroporto de Cabul foram compartilhadas centenas de vezes em redes sociais desde o último dia 18 de agosto junto à afirmação de que se tratava de um “modelo inflável” utilizado para simular a evacuação no Afeganistão. No entanto, não há nenhuma prova que respalde essa versão: imagens transmitidas por dezenas de meios de comunicação em 16 de agosto de 2021 mostram a aeronave decolando e no ar, e a Força Aérea dos Estados Unidos confirmou à AFP que o avião é real.

“Atores de crise (Crisis actors) e um modelo de avião inflável. Mais uma Psy-op empregada, uma ridícula e encenada farsa que foi imediatamente crida e prontamente repercutida não apenas pelas massas mas por vários daqueles que se julgam ‘acordados”, diz uma das publicações no Facebook (1, 2, 3), que incluem duas fotos de aviões militares norte-americanos.

Segundo as postagens, a imagem de cima mostra um avião real, enquanto a de baixo corresponderia a um “modelo inflável”, utilizado como parte de uma simulação das evacuações no Afeganistão.

Captura de tela feita em 1º de setembro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

Afirmações sobre o “avião falso” também circulam no Twitter (1, 2), assim como em publicações em inglês, espanhol e alemão.

As postagens, que começaram a circular três dias depois que os talibãs tomaram o controle do palácio presidencial em Cabul, em 15 de agosto, não explicam por qual motivo um gigantesco avião inflável teria sido fabricado, nem qual seria o objetivo de simular a retirada de pessoas do aeroporto internacional da capital afegã.

O avião existe

O avião militar de carga é um C-17 Globemaster III, cujo primeiro modelo fez seu voo inaugural em 1991. Atualmente, a Força Aérea norte-americana conta com 223 aeronaves desse tipo. A 02-1109, que aparece nas publicações viralizadas, está ativa ao menos desde 2004.

Deana Heitzman, porta-voz da Força Aérea dos Estados Unidos, disse à equipe de verificação da AFP no último dia 26 de agosto: “Posso confirmar que o C-17 Globemaster III [visto nas publicações nas redes sociais] é real e está designado à 62ª Ala de Transporte Aéreo da Base Conjunta Lewis-McChord em Washington”.

O número 1109

Várias das publicações viralizadas relacionam o número “1109”, visto próximo às janelas do avião militar, com uma suposta alusão aos atentados de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas e o Pentágono, para os quais geralmente se usa a referência “9/11” nos Estados Unidos.

No entanto, o número 1109 da aeronave corresponde a seu número de registro, como visto nas fotografias do banco de imagens de aviação Jetphotos, e como foi confirmado pela própria Heitzman.

De acordo com um artigo da revista Air Force Association (AFA) publicado no último dia 17 de agosto, o avião decolou de Washington e “aterrizou no aeroporto internacional Hamid Karzai em 16 de agosto para entregar um carregamento de material de apoio à evacuação de civis norte-americanos e afegãos do país quando os talibãs tomaram o controle de Cabul”.

“Atores de crise?”

A também porta-voz da Força Aérea dos Estados Unidos Ann Stefanek comentou à equipe de verificação da AFP que antes que a tripulação pudesse descarregar a aeronave em 16 de agosto, “o avião foi rodeado por centenas de civis afegãos que haviam ultrapassado o perímetro do aeroporto. Frente à rápida deterioração da segurança em torno da aeronave, a tripulação do C-17 decidiu abandonar o aeródromo o mais rápido possível”.

As imagens de pessoas correndo atrás do avião durante a sua decolagem deram a volta ao mundo.

O ruído do motor do avião que se preparava para decolar é claramente audível. Nada aponta, como asseguram as publicações viralizadas, que os homens que correm ao seu redor, alguns dos quais perderam a vida após a decolagem, sejam “atores”.

Outras sequências, como as divulgadas pela agência de notícias afegã Aśvaka e pela rede de notícias do Catar Al-Jazeera, mostram pessoas caindo da aeronave em pleno voo. Quando o avião chegou ao Catar, foram encontrados restos humanos no trem de pouso.

O Escritório de Investigações Especiais da Força Aérea dos EUA anunciou uma investigação sobre os acontecimentos que levaram à decolagem caótica de 16 de agosto.

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