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Não há registro de que Lula tenha celebrado a vitória do Talibã no Afeganistão

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Publicações compartilhadas milhares de vezes em redes sociais desde meados de agosto de 2021 asseguram que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse, no dia 17 do mesmo mês: “Lamento que as mulheres estejam sofrendo com o Talibã, mas eu tou feliz porque o Talibã representa uma derrota dos EUA”. Não há, contudo, registros de que Lula tenha dado essa declaração. No dia citado nas publicações, o ex-mandatário participou de dois eventos públicos nos quais não mencionou o Afeganistão. A alegação foi negada, além disso, por sua assessoria.

“Pra mim, desse momento em diante, a mulher que votar no PT e na esquerda defende o feminicídio”, diz a legenda de uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3), Instagram e Twitter, ao menos desde 19 de agosto de 2021.

O conteúdo começou a circular alguns dias após combatentes talibãs voltarem ao poder no Afeganistão, em 15 de agosto, no contexto da retirada de tropas norte-americanas do país.

Captura de tela feita em 27 de agosto de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

Uma busca no Google pela frase atribuída ao ex-presidente não localiza, no entanto, nenhum registro de que Lula tenha comemorado a vitória do Talibã.

Em 17 de agosto de 2021, dia citado nas publicações viralizadas, o ex-presidente participou de dois eventos públicos no Piauí: uma transmissão ao vivo com militantes do partido e um ato“em defesa da educação e do enfrentamento à pobreza”.

O AFP Checamos assistiu à íntegra de seus discursos. Em nenhum momento, o ex-mandatário mencionou o Afeganistão ou o Talibã. As falas se centraram na importância da educação e na história da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).

Uma busca em suas contas oficiais no Twitter e Facebook tampouco localizou a declaração viralizada.

O AFP Checamos também consultou todas as publicações de Lula arquivadas nos sites Wayback Machine (1, 2) e Archive desde 15 de agosto, quando os talibãs chegaram a Cabul. Nenhuma das postagens continha essa frase.

A única publicação em que Lula menciona o Talibã foi feita no último dia 24 de agosto, mas com uma mensagem muito distinta da compartilhada nas redes:

“É lamentável que o Brasil tenha se tornado pária internacional. Ninguém convida o Bolsonaro pra visitar nenhum país. E nenhum chefe de Estado quer visitar o Brasil. Ninguém quer aparecer do lado dele… Se bem que agora é capaz que o Talibã convide o Bolsonaro…”, escreveu no Twitter.

Uma consulta ao site do PT também não leva a nenhum registro da suposta fala do ex-presidente.

Os textos sobre o tema disponíveis na página do partido são um artigo de opinião de um professor de Relações Internacionais, que classifica como uma “tragédia” a situação do Afeganistão, e uma reportagem replicada do site de notícias CNN, intitulada: “Ascensão do Talibã ameaça direitos conquistados por mulheres afegãs em 20 anos”.

Procurada pelo AFP Checamos em 26 de agosto, a assessoria de Lula negou que ele tenha dito a frase viralizada.

Entre 1996 e 2001, o Talibã governou o Afeganistão com um regime caracterizado pela imposição estrita da sharia - a lei islâmica-, impedindo que as mulheres estudassem, trabalhassem e saíssem de casa sem um acompanhante homem de sua família. Com o retorno do grupo, muitas afegãs temem o retorno a essa realidade.

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