La neozelandesa Laurel Hubbard durante la competencia de halterofilia femenina en Gold Coast, Australia, 9 de abril de 2018 ( AFP / Adrian Dennis)

Atleta transgênero na Olimpíada de Tóquio: o que se sabe sobre “vantagem competitiva”

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Os Jogos Olímpicos de Tóquio, que começam em 23 de julho, terão pela primeira vez uma competidora transgênero. A neozelandesa Laurel Hubbard, que fez a transição do gênero masculino para o feminino, disputará na categoria de mais de 87 kg no levantamento de peso. Nas redes, usuários questionam a participação da halterofilista mencionando uma suposta vantagem competitiva em relação a mulheres cisgênero - que se identificam com o sexo biológico. Checamos o que o Comitê Olímpico Internacional (COI) e especialistas dizem sobre o tema.

“O halterofilista Laurel Hubbard deve se tornar o primeiro atleta transgênero a competir nos Jogos Olímpicos. Ele vai competir na categoria FEMININA de 87 quilos, de acordo com o Comitê Olímpico da Nova Zelândia. JÁ SABEMOS QUEM SERÁ O PRÓXIMO ‘CAMPEÃO FEMININO!’”, escreveu o deputado estadual Bruno Engler (PRTB) no Twitter.

“Quando o absurdo atinge o patamar da mais absoluta insanidade. O prenúncio do fim do desporto feminino”, opinou outro usuário, ao compartilhar uma reportagem sobre a qualificação de Hubbard.

Os principais questionamentos se concentram na compreensão de que mulheres transgênero manteriam a carga hormonal masculina, o que supostamente poderia levar ao desenvolvimento de características benéficas à performance esportiva, como melhor capacidade cardiorrespiratória e maior massa óssea e muscular.

O que diz o Comitê Olímpico Internacional?

Pessoas passam pelos anéis olímpicos em Tóquio, em 7 de julho de 2021 ( AFP / Kazuhiro Nogi)

Em 2004, o Comitê Olímpico Internacional (COI) aprovou um primeiro consenso sobre a participação de atletas transgênero nos Jogos Olímpicos. A organização determinou que quem fez a transição do sexo masculino para o feminino, e vice-versa, antes da puberdade, poderia competir na categoria desejada, sem restrições.

Já quem passou pela transição após a puberdade precisaria cumprir algumas condições. Entre elas, passar pela cirurgia de redesignação sexual, ter o gênero reconhecido legalmente pela autoridade apropriada e se submeter a uma terapia hormonal por “tempo suficiente” para minimizar as “vantagens relacionadas ao gênero”, como expressa o documento.

Para chegar a esses termos, médicos de diferentes especialidades se reuniram em Estocolmo, onde discutiram por quanto tempo seria relevante a influência hormonal da puberdade, se a influência da testosterona na força muscular desapareceria após a transição e por quanto tempo deveria durar do tratamento com hormônios femininos.

Em 2015, o COI atualizou essas diretrizes, deixando de exigir o reconhecimento legal do gênero e a cirurgia de redesignação sexual. Também foi determinado que atletas que fizeram a transição do gênero feminino para o masculino poderiam competir na categoria desejada sem nenhuma restrição.

Já para mulheres transgênero, como é o caso de Laurel Hubbard, foi detalhado o tratamento hormonal necessário: essas atletas devem mostrar que o nível de testosterona em seu sangue permaneceu inferior a 10 nanomol/litro por ao menos 12 meses antes de sua primeira competição e durante todo o período em que estão competindo.

O que dizem especialistas?

Apesar de o consenso inicial do COI existir há 17 anos, especialistas destacam que ainda não há estudos suficientes para determinar se há, ou não, vantagem competitiva de mulheres transgênero em relação a mulheres cisgênero.

“É possível, sim, que uma mulher trans tenha vantagens em relação a mulheres cis no desempenho de atividades atléticas. Mas, para que se tenha uma avaliação mais fiel, há necessidade de estudos que comparem atletas trans com atletas cisgênero, e esses estudos a gente ainda não tem”, afirmou ao Checamos a endocrinologista Elaine Frade Costa.

Roberto Nahon, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte e ex-coordenador de Ações Médicas do Comitê Olímpico do Brasil (COB), explicou o porquê à AFP.

Uma das maneiras de fazer um estudo desse tipo “é pegar uma população, submeter ao tratamento. Pegar uma mesma população, não submeter ao tratamento e fazer um placebo. Isso no papel é muito bonito, mas na prática é difícil, visto a quantidade de atletas que a gente tem na população geral”, afirmou Nahon.

“Temos menos de 0,1% de atletas das modalidades olímpicas. Destes, nem 0,1% são atletas de nível para disputar medalhas em nível internacional. Considerando a quantidade de indivíduos trans, o N para esse tipo de estudo seria muito baixo”, acrescentou.

Atletas quenianos no último dia de testes para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em Nairóbi, em 19 de junho de 2021 ( AFP / Simon Maina)

O que já se sabe, pontuou Nahon, é que “um indivíduo transgênero feminino tem menos força do que a população masculina”.

De fato, uma metanálise publicada em março de 2021 no British Journal of Sports Medicine indicou que mulheres transgênero apresentaram uma redução considerável nos níveis de massa corporal magra, área muscular, força muscular e de hemoglobina após se submeterem ao tratamento hormonal recomendado pelo COI.

Após quatro meses de hormonoterapia, as mulheres transgênero apresentaram níveis de hemoglobina equivalentes ao de mulheres cis. Esse parâmetro é importante principalmente em esportes de resistência, já que determina o fornecimento de oxigênio aos tecidos do corpo.

Nos outros critérios, a metanálise indica que a terapia fez com que os níveis das mulheres transgênero ficassem inferiores aos de homens cis, mas ainda superiores aos de mulheres cis.

“Então estamos em um período em que com certeza tem muita coisa a se entender para se achar um meio do caminho, onde não seja injusto nem para um lado, nem para o outro”, afirmou o ex-coordenador de Ações Médicas do COB.

Por outro lado, estudos indicam que fatores psicológicos e sociais podem influenciar negativamente atletas transgênero no esporte, considerando a percepção de discriminação e de menos apoio da sociedade.

“Realmente, se houver essa discriminação”, comentou a endrocrinologista Elaine Frade Costa, “há um efeito psicológico que certamente vai influenciar o desempenho dessas pessoas no esporte”.

Após a classificação de Laurel Hubbard, a chefe do Comitê Olímpico da Nova Zelândia, Kereyn Smith, informou que a halterofilista atendeu todos os critérios do COI, e destacou: “Reconhecemos que a identidade de gênero no esporte é uma questão altamente sensível e complexa que requer um equilíbrio entre direitos humanos e justiça”.

A equipe de checagem da AFP já verificou, em inglês, uma alegação falsa envolvendo Hubbard.

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