Esta gravação está na Internet ao menos desde dezembro de 2019, antes da detecção do novo coronavírus na China

Um vídeo no qual um rabino faz uma oração diante de milhares de fiéis no Muro das Lamentações foi compartilhado nas redes sociais neste mês de abril como se mostrasse judeus rezando contra o novo coronavírus. Esta gravação, contudo, pode ser encontrada on-line ao menos desde dezembro de 2019, dias antes da detecção do novo coronavírus na China e meses antes da detecção da COVID-19 em Israel.

“ISRAEL COMEÇOU BATALHA CONTRA CORONAVÍRUS. Mais de 1 milhão de judeus nas ruas de Jerusalém; clamando a Adonay o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. ‘ISRAEL CLAMANDO PELO MESSIAS’. ‘ISRAEL É O RELÓGIO DO ARREBATAMENTO’ ‘É DE ARREPIAR’”, diz uma das publicações, com data do último dia 2 de abril.

Captura de tela feita em 16 de abril de 2020 de publicação no Facebook

Um vídeo semelhante foi publicado no YouTube em 5 de abril intitulado “Israel contra o CORONA VÍRUS muro das lamentações [sic] e cuja descrição é: “Israel Jerusalém oração a Adonai por livramento dessa Pandemia”.

Há, também, outras postagens da gravação no Facebook e no YouTube (1) com texto similar, mas que não fazem relação direta ao novo coronavírus e que foram compartilhadas mais de 4,4 mil vezes desde o início do mês de abril, como: “Jejum40dias Mais de 1 milhão de judeus nas ruas de Jerusalém clamando a Adonay o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. ‘ISRAEL CLAMANDO PELO MESSIAS’. ‘ISRAEL É O RELÓGIO DO ARREBATAMENTO’ ‘É DE ARREPIAR’ EitaglóriasdeDeus [sic].

Nestas publicações, contudo, é possível ver alguns usuários mencionando que a gravação é antiga e, portanto, não poderia ter relação com a situação atual da pandemia de coronavírus: “Esse vídeo é muito antigo. Os judeus realizam essas festas segundo o seu calendário desde o êxodo. Não se enganem. Não tem nada a ver com jejum”.

Por meio da ferramenta InVid-WeVerify o vídeo foi separado em uma série de fragmentos e uma busca reversa* feita no Google por uma dessas capturas levou a uma publicação no Facebook da mesma gravação em 29 de dezembro de 2019, ou seja, antes da detecção do novo coronavírus na cidade de Wuhan, na China.

Captura de tela feita em 17 de abril de 2020 de publicação no Facebook

De acordo com uma matéria da AFP de 3 de janeiro de 2020, a China havia confirmado naquele mesmo dia “novos casos de uma misteriosa pneumonia viral”, sendo que os 27 primeiros foram notificados em 31 de dezembro de 2019.

Em Israel, por sua vez, os primeiros casos foram registrados em fevereiro. No dia 23 daquele mês, havia dois infectados no país, passageiros repatriados do navio “Diamond Princess”, que estava ancorado no porto japonês de Yokohama.

Além da gravação ser antiga, a AFP também reportou uma série de histórias sobre a Páscoa judaica digital em tempos de coronavírus devido, entre outras coisas, ao fechamento total de cidades para impedir a propagação do vírus causador da COVID-19, o que impossibilitaria uma aglomeração desta proporção em um ponto turístico como o Muro das Lamentações, onde o vídeo foi gravado.

Uma imagem registrada em 12 de abril de 2020 pelo fotógrafo da AFP Menahem Kahana mostra um pequeno grupo de religiosos no Muro das Lamentações, em Jerusalém, durante a Páscoa. Devido à pandemia, a oração anual foi realizada com um número limitado de celebrantes e sem a presença do público, enquanto locais culturais da Terra Santa estão fechados, uma vez que as autoridades procuram evitar a propagação da doença, de acordo com a legenda da foto.

Um pequeno grupo de religiosos judeus é visto no Muro das Lamentações, em Jerusalém, durante a Páscoa, em 12 de Abril de 2020

Até este 17 de abril, mais de 2,1 milhões de pessoas foram contaminadas pelo novo coronavírus em todo o mundo e mais de 145 mil faleceram em decorrência da COVID-19.

Em resumo, é falso que o vídeo de um rabino fazendo uma oração no Muro das Lamentações diante de milhares de fiéis tenha ocorrido em Israel em abril deste ano como uma ação contra o novo coronavírus. Há registros desta gravação na Internet ao menos desde 29 de dezembro de 2019, antes que a China informasse sobre a detecção desta nova doença.

*Uma vez instalada a extensão InVid-WeVerify no navegador Chrome, clica-se com o botão direito sobre a imagem e o menu que aparece oferece a possibilidade de pesquisa da mesma em vários buscadores.

AFP Brasil