O presidente, Jair Bolsonaro, em Brasília em 23 de agosto de 2020 (AFP / Sergio Lima)

É falso que jornalista disse que iria visitar a filha de Bolsonaro na cadeia antes de presidente insultá-lo

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Após o presidente Jair Bolsonaro dizer, no último dia 23 de agosto, que tinha vontade de encher a boca de um jornalista de “porrada”, usuários passaram a compartilhar um vídeo do incidente, legendado para parecer que a fala do mandatário foi uma resposta a uma provocação do repórter. Segundo as postagens, o jornalista teria dito que iria visitar a filha de Bolsonaro na cadeia. Mas isto é falso: a legenda da gravação viralizada não corresponde ao seu áudio.

“URGENTE! Como sempre, a imprensa mentiu e tirou o vídeo do contexto Bolsonaro respondeu a quem o agrediu com a frase: ‘vamos visitar sua filha na cadeia’, no que o presidente foi até muito calmo, para tamanha agressão!”, diz uma das publicações compartilhadas centenas de vezes no Twitter (1, 2, 3), Facebook (1, 2, 3), Instagram (1, 2, 3) e YouTube em menos de 24 horas.

A alegação acompanha um vídeo de 8 segundos no qual o presidente Jair Bolsonaro anda junto a um grupo de pessoas. Logo no início, um homem diz algo, difícil de ser identificado devido à baixa qualidade do áudio.

A legenda da gravação indica se tratar da seguinte frase: “Vamo visita sua filha na cadeia agora”. Em seguida, o presidente diz: “Minha vontade é encher tua boca na porrada, tá?”.

Captura de tela feita em 24 de agosto de 2020 de uma publicação no Twitter

Esta versão da história foi publicada também em diversos artigos, alguns já deletados.

No mesmo dia, o próprio presidente e seu filho Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro, compartilharam um vídeo do incidente – sem a legenda falsa, mas com a descrição: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, em referência a um versículo bíblico utilizado pelo presidente em contexto eleitoral.

Agressão noticiada pela imprensa

A alegação viralizada vai contra o noticiado pela imprensa no último dia 23 de agosto. Nesta data, Bolsonaro estava fazendo uma visita à Catedral Metropolitana de Brasília quando foi interpelado por um grupo de repórteres.

Segundo amplamente reportado (1, 2, 3), a frase “minha vontade é encher tua boca na porrada, tá?”, teria sido uma resposta a um profissional do jornal O Globo, que questionou o presidente sobre repasses de R$ 89 mil feitos por Fabrício Queiroz, ex-assessor de outro de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro, à primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Os documentos fazem parte de uma investigação sobre a suposta prática de rachadinha envolvendo o filho mais velho do presidente.

O assunto foi um dos mais comentados no Twitter no dia. Usuários postaram a pergunta feita pelo repórter como forma de pressionar o presidente e se posicionar de forma contrária à agressão verbal.

Legenda falsa

Uma comparação entre o vídeo compartilhado nas redes sociais e o áudio do momento da agressão, publicado pelo jornal O Globo, permite concluir que a frase “vamo visita sua filha na cadeia agora” não foi dita.

Neste momento, na verdade, é possível ouvir uma terceira pessoa dizendo: “Vamos visitar nossa feirinha da catedral, presidente”, em uma referência à Catedral Metropolitana de Brasília, onde eles estavam.

Após Bolsonaro dizer que tinha vontade de encher a boca de alguém de “porrada”, o homem continua, pedindo “vamos visitar nossa feirinha, presidente”, e reforçando “seria importante aqui pra gente”.

Em seguida, outra pessoa presente no local pergunta se o presidente havia ameaçado a imprensa. No áudio, não é possível ouvir qualquer resposta de Bolsonaro.

Fotos feitas pela AFP neste dia efetivamente mostram Bolsonaro vendo artefatos que parecem estar sendo vendidos em uma feira em frente à Catedral Metropolitana de Brasília.

Presidente Jair Bolsonaro segura um broche em área próxima à Catedral Metropolitana de Brasília em 23 de agosto de 2020

Procurado pelo AFP Checamos, Sérgio Lima, o fotógrafo da AFP que acompanhou Bolsonaro no último domingo e que presenciou o momento da fala sobre encher alguém de “porrada”, reiterou que não ouviu qualquer frase semelhante à “vamo visita sua filha na cadeia agora”.

“Não ouvi nada parecido com isso. Um dos vendedores pediu para que ele visitasse a feirinha. E ele realmente foi”, disse Lima ao Checamos.

O fotógrafo ainda afirmou que ficou claro, no momento, que a frase de Bolsonaro foi direcionada ao jornalista após a pergunta sobre os repasses de Fabrício Queiroz à primeira-dama.

Ofensas à imprensa

Essa não é a primeira vez que o presidente Jair Bolsonaro ofende jornalistas.

Um dia após protagonizar o vídeo checado neste artigo, Bolsonaro se referiu aos profissionais da imprensa como “bundões”.

No início deste ano, o presidente já havia insinuado que a repórter Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S.Paulo, conseguiu informações em troca de sexo. “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”, disse Bolsonaro em fevereiro deste ano.

Após a fala do último domingo, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) condenou o que descreveu como “mais um episódio violento protagonizado por Jair Bolsonaro”. “Um presidente ameaçar ou agredir fisicamente um jornalista é próprio de ditaduras, não de democracias”, disse a organização.

Em resumo, é falso que a fala de Bolsonaro sobre querer “encher” um jornalista de “porrada” tenha sido uma reação a um convite do repórter para visitar a filha do presidente na cadeia. Uma análise do áudio do momento, com qualidade superior, permite concluir esta última frase não foi dita, o que foi reiterado por um fotógrafo da AFP presente no local.

Esse texto faz parte do Projeto Comprova. Participaram jornalistas da Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e do portal GaúchaZH. O material foi adaptado por AFP Checamos.

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