Visão aérea de toras de madeira apreendidas pela Polícia Militar do Amazonas no rio Manacapuru, em 16 de julho de 2020 (Ricardo Oliveira / AFP)

Bolsonaro compara incorretamente tamanho da Amazônia com Europa e minimiza queimadas e desmatamento em live

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Durante o pronunciamento semanal realizado em suas redes sociais na última quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro abordou temas como a pandemia do novo coronavírus, o agronegócio e o meio ambiente, dedicando atenção especial à Amazônia. Estas declarações continham, contudo, dados imprecisos sobre o tamanho da floresta, a quantidade de área desmatada e a detecção de queimadas no bioma.

Veja abaixo as afirmações do presidente Jair Bolsonaro verificadas pela AFP.

Queimadas na Amazônia

“Uma foto aqui do satélite da Nasa. Compare aqui, o que está de vermelho aí, o foco de calor, incêndio. Compare o Brasil com a parte subsaariana (...) Então a Nasa aqui, demonstrando, e a crítica é só ao Brasil. Se vocês olharem bem, na  região Amazônica não tem nada vermelho, não pega fogo. A floresta não pega fogo”

Ao começar a abordar o tema das queimadas na floresta Amazônica, o presidente Jair Bolsonaro apresentou imagens de satélite da Nasa que mostram a concentração de focos de incêndio no mundo, afirmando que não havia “nada vermelho” na região Amazônica e que a floresta “não pega fogo”.

Uma comparação entre os dados de focos detectados neste dia 24 de julho no Sistema de Informações sobre Incêndios para Gerenciamento de Recursos (FIRMS, na sigla em inglês) da Nasa e o mapa da floresta Amazônica da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG) permite concluir, contudo, que há sim focos de incêndio nesta região florestal.

Comparação feita em 24 de julho de 2020 entre imagens de satélite do FIRMS da Nasa e mapa da floresta Amazônica da RAISG

Essa informação é corroborada por dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) que registrou, no último mês de junho, o maior número de incêndios no bioma Amazônico neste mês desde 2007, com 2.248 focos.

No total, de 1º de janeiro até 23 de julho deste ano, foram 10.767 focos de incêndios detectados na floresta - número inferior aos 12.857 registrados no mesmo período do ano anterior, mas ainda superior aos identificados nos respectivos meses em 2018 e 2017.

Ainda segundo o INPE, os incêndios no Pantanal brasileiro, situado ao sul da Amazônia, triplicaram (+192%) entre janeiro e 22 de julho deste ano com relação ao mesmo período de 2019.

Ao analisar as imagens da Nasa, Bolsonaro também chamou atenção para a quantidade de marcações vermelhas na área conhecida como África subsaariana, pedindo que o espectador comparasse a região com o Brasil.

De fato, a agência norte-americana mostra uma grande concentração de focos de incêndio nos países africanos localizados ao sul do Deserto do Saara.

Em junho do ano passado a Nasa explicou que incêndios são comuns na África nesta época do ano devido a uma prática de agricultura empregada no continente.

“Chamado de ‘corte e queima’ esse tipo de limpeza de campo é barato e demanda pouca tecnologia. E funciona. A camada resultante de cinzas gerada pela técnica de corte e queima fornece à terra recém-limpa uma camada rica em nutrientes para ajudar a fertilizar as plantações”, afirmou a agência.

“Isso não quer dizer que todos os incêndios dessa imagem [de 2019] estão controlados e contidos. Frequentemente, incêndios gerados para renovar os campos podem ficar fora de controle à medida que o vento ou tempestades movem o fogo para fora da área que seria limpa. O que é certo é que esses incêndios estão queimando há pelo menos um mês”, completou.

Amazônia e Europa

“O tamanho da Amazônia é maior que a Europa toda. Não tem como você fiscalizar”

Posteriormente, o presidente mencionou que uma das dificuldades de fiscalizar as queimadas na Amazônia seria o seu tamanho, afirmando que a floresta é maior que todo o continente europeu.

Essa informação, no entanto, é incorreta. De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bioma da Amazônia tem uma área aproximada de 4.196.943 km², o que corresponde a mais de 49% do território brasileiro.

De acordo com a Enciclopédia Britânica, a Europa, por sua vez, tem cerca de 10 milhões de km², o que significa que a Amazônia corresponde a 41% do território europeu, ou seja, menos da metade deste continente.

Em uma comparação feita entre a área da Amazônia e a área apenas dos países que compõem a União Europeia (UE), os números, de fato se aproximam. Segundo as informações do site da UE, sua área total é de cerca de 4 milhões de km², enquanto a da Amazônia é de 4,1 milhões de km².

Desmatamento florestal

“É igual a desmatamento também. Se for somar nos últimos 20 anos todas as áreas que foram desmatadas na Amazônia, você desmatou a América do Sul todinha”

Bolsonaro indicou, ainda, que o tamanho da área desmatada na Amazônia nos últimos 20 anos corresponderia ao tamanho do continente sul-americano. Essa afirmação também é falsa.

Na base de dados criada pelo INPE, o portal TerraBrasilis, pode-se ter acesso à taxa de desmatamento na Amazônia Legal, ou Amazônia brasileira, por estados a partir 1988.

Levando em consideração o período de tempo indicado pelo presidente e o ano mais recente do portal - de 2000 a 2019, este último ano inclusive -, o total de quilômetros quadrados de áreas desmatadas é de 244.139. Este número, contudo, poderia ser um pouco maior, já que o portal faz os cálculos com base nas áreas de desmatamento maiores do que 6,25 hectares.

Imagem aérea de área desmatada na floresta Amazônica perto de Porto Velho, Rondônia, em 23 de agosto de 2019

A América do Sul, por sua vez, tem 17,8 milhões de km², o que significa que a área total de desmatamento da Amazônia nos últimos 20 anos corresponde, na verdade, a 1,37% do continente sul-americano, com base nos dados dos INPE, e não a sua totalidade, como indicou o presidente em sua live.

Sem desmatamento no Brasil?

“Só a título de curiosidade, no início do século passado, não sei quem foi que disse, não botaram a fonte aqui, tínhamos 10% das florestas do mundo, hoje temos 30%. Não é porque foi plantada mais árvore no Brasil, é que em outros países houve desmatamento. Aqui não”

Por fim, Bolsonaro afirmou que o Brasil possui, hoje, 30% das florestas do mundo uma vez que houve desmatamento em outros países, mas “aqui não”.

A equipe de checagem da AFP não conseguiu localizar a fonte da informação citada pelo presidente. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, contudo, o bioma Amazônico representa cerca de 30% de todas as florestas tropicais remanescentes do mundo.

Não é verdade, contudo, que não há desmatamento no Brasil. De acordo com levantamento divulgado pelo Global Forest Watch em junho deste ano, o Brasil representou, sozinho, mais de um terço de toda a perda de florestas primárias tropicais úmidas a nível mundial em 2019.

Entre 1988 e 2019, o portal TerraBrasilis registrou, ainda, um total de 446.386,00 km² desmatados da Amazônia Legal.

AFP Brasil