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Lula não disse que irá regular padres e pastores se for eleito; fala foi editada

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Um vídeo em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) parece dizer que mostrará a padres e pastores “qual é o papel deles” se for eleito novamente para o Palácio do Planalto foi visualizado mais de 670 mil vezes em redes sociais desde o último dia 26 de agosto. A gravação foi, no entanto, manipulada. No registro original, Lula (2003-2010) disse: “Se eu ganhar as eleições, aí eu vou conversar com os militares, como chefe das Forças Armadas, como chefe supremo, para dizer qual é o papel deles”. 

No vídeo compartilhado no Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e TikTok, Lula usa máscara de proteção contra a covid-19 e parece dizer: “Com todo o respeito que eu tenho pelas instituições brasileiras, eu estou conversando com quem é pastor, com quem é padre. Eu vou conversar com todo mundo, enquanto povo brasileiro e enquanto eleitores. Se eu ganhar as eleições, aí eu vou conversar, como chefe supremo, para dizer qual é o papel deles. Não é se intrometer na política porque isso não dá certo”

A suposta afirmação foi amplamente replicada nas redes sociais, inclusive por políticos, como os deputados federais Filipe Barros (PSL - PR) e Soraya Manato (PSL - ES). 

Captura de tela feita em 31 de agosto de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

Artigos com a mesma alegação também somam milhares de compartilhamentos (1, 2). “Lula diz que vai ’regular’ padres e pastores se for eleito: ‘Vou colocar as coisas no devido lugar’; VEJA VÍDEO”, diz texto publicado no site Terra Brasil Notícias

A gravação que embasa todas essas publicações foi, no entanto, manipulada. 

Uma busca no Google por palavras-chave ouvidas no vídeo leva à transmissão ao vivo da coletiva de imprensa onde foram feitas as imagens, disponibilizada nas contas oficiais de Lula no Facebook e no YouTube. 

Ao assistir à íntegra a gravação, feita no último dia 25 de agosto em Natal, é possível verificar que trechos da fala do ex-presidente foram recortados e trocados de lugar na sequência compartilhada nas redes. No registro original, Lula falava, na verdade, sobre o papel das Forças Armadas na política.

Militares, não “pastores e padres”

A partir dos 47 minutos da transmissão ao vivo, Lula começa a responder à seguinte pergunta: “Para nós, que somos cidadãos brasileiros e acompanhamos o dia a dia da política, o que se vê muito é se falar em golpe. Se o senhor for eleito, o senhor acha que assume mesmo?”

O ex-presidente responde: “Olha, com todo o respeito que eu tenho às instituições brasileiras, a instituição chamada Forças Armadas é a única que tem definido o seu papel na Constituição da República. (...) Se alguém das Forças Armadas quiser fazer política pode. É só abandonar o papel, que ele tem nas Forças Armadas, se aposentar e pode ser candidato a presidente, pode ser candidato a governador, deputado, senador”

Lula continua: “E tem gente que pergunta ‘E Lula, você vai conversar com as Forças Armadas?’. Eu estou conversando com as Forças Armadas agora, com essa resposta que eu estou dando para você. Eu estou conversando com quem é das Forças Armadas, eu estou conversando com quem é do Ministério Público, eu estou conversando com quem é da Polícia Federal, eu estou conversando com quem é pastor, com quem é padre, com quem é ateu. Eu vou conversar com todo mundo, enquanto povo brasileiro e enquanto eleitores. Se eu ganhar as eleições, aí eu vou conversar com os militares, como chefe das Forças Armadas, como chefe supremo, para dizer qual é o papel deles. Não é se intrometer na política porque isso não está certo”

A coletiva de imprensa também foi transmitida ao vivo pelo jornal Tribuna do Norte, de Natal. No registro, a fala do ex-presidente é a mesma ouvida na transmissão disponibilizada em seus perfis. 

Em sua conta no Twitter, Lula se posicionou sobre a alegação viralizada. “O Pai da Mentira ataca novamente. Não caia em terrorismo bolsonarista. Eles fazem fake news e vocês me ajudam compartilhando a verdade”, escreveu.

O ex-mandatário ainda não confirmou oficialmente a intenção de se candidatar às eleições presidenciais de 2022, mas em publicação no Twitter afirmou que “se for necessário pra tirar o Bolsonaro”, será candidato. 

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