Vídeo mostra uso de fogo para uvas não congelarem na França, não no Rio Grande do Sul

Copyright © AFP 2017-2022. Todos os direitos reservados.

Publicações compartilhadas mais de 110 mil vezes desde 27 de julho de 2021 mostram a filmagem de uma plantação de uvas em um campo montanhoso repleto de chamas. Nas legendas, usuários alegam que a técnica está sendo usada por viticultores em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, para que as uvas não congelem com o frio. Mas isso é falso. As imagens são, na verdade, de plantações em Chablis, na França, em 6 de abril de 2021, durante uma onda de geadas.

“Para não congelar as uvas RS é trabalho meu povo!!! #repost”, afirma uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2)

“NO RIO GRANDE DO SUL PRODUTORES DE UVA TOMAM MEDIDAS PARA EVITAR A GEADA. Conforme informações do diário da informação em Bento Gonçalves para não congelar as uvas  os produtores estão utilizando o fogo em tonéis, a técnica já é usada há alguns anos no Brasil e em outros países”, escreveu uma usuária no Twitter (1, 2, 3). 

A publicação também foi compartilhada em espanhol (1, 2).

Captura de tela feita em 28 de julho de 2021 de uma publicação no Facebook

O conteúdo começou a circular quando uma massa de ar polar chegou ao país no  último 28 de julho, levando as temperaturas na região sul a menos de 0ºC, especialmente na Serra Gaúcha, onde a sensação térmica atingiu -20ºC. Apesar disso, não há registros de que a técnica retratada no vídeo viral tenha sido aplicada na região de Bento Gonçalves para evitar o congelamento de uvas.

A partir de uma busca reversa por capturas de tela do vídeo viralizado, usando a extensão InVID-WeVerify*, a equipe de checagem da AFP chegou até o perfil no Instagram do fotógrafo Titouan Rimbault, que postou a filmagem no último 6 de abril. Trata-se da publicação mais antiga encontrada da gravação.

Na época, o fotógrafo compartilhou uma série de fotos e filmagens (1, 2) de vinhedos em Chablis, conhecida pela produção de vinhos e localizada ao norte da região da Borgonha, na França.

Rimbault confirmou ao Checamos que os vídeos são de sua autoria e que foram filmados em vinhedos em Chablis em abril de 2021. A partir dos metadados do arquivo original enviado pelo fotógrafo à AFP, foi possível confirmar que a data da filmagem corresponde ao último 6 de abril.

“E mais uma série de fotos da geada da primavera (...) Este espetáculo é grandioso, este momento é magnífico, mas não podemos esquecer a delicada situação de todos os viticultores que lutam contra a mãe natureza”, escreveu Rimbault no Instagram, em tradução livre do francês.

 
 
 
 
 
Ver essa foto no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por Titouan Rimbault Photographe (@titouanrimbaultphotographe)

Um trecho do vídeo foi compartilhado também no YouTube e em outros perfis do Instagram, em russo, e por um blogueiro de vinhos, em francês. As publicações reafirmam que a cena foi registrada na França.

Uma imagem capturada por Rimbault também foi compartilhada pelo presidente Emmanuel Macron em seu perfil no Facebook. O mandatário francês expressava solidariedade com a situação dos viticultores.

Além disso, a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (SEAPDR) do Rio Grande do Sul desmentiu em seu site o conteúdo viralizado. "Não temos videiras em brotação, com folhas [agora], que é quando elas precisam ser protegidas das geadas", afirmou a pesquisadora Amanda Junges, do Centro de Pesquisa Carlos Gayer, da SEAPDR.

Produções afetadas

O fotógrafo Titouan Rimbault explicou ao Checamos que a técnica retratada na gravação é feita “por causa das temperaturas muito baixas para a estação. Os viticultores acendem ‘velas’ para aquecer o ar e evitar que os botões [que são colhidos posteriormente] não congelem”.

As geadas ocorridas na França em abril deste ano foram históricas por conta da intensidade e do tamanho das áreas afetadas, afirmou à AFP em abril de 2021 Ludivine Griveau, gestora dos 60 hectares de vinha do monumento histórico Hospices de Beaune (Côte d´Or).

Água é espalhada em vinhedo próximo a Chablis após temperaturas abaixo de 0ºC, em 7 de abril de 2021 ( AFP / Jeff Pachoud)
Viticultor acende velas anticongelamento em vinícola próxima a Chablis, em 7 de abril de 2021 ( AFP / Jeff Pachoud)

 

 

François Labet, presidente do Gabinete Interprofissional de Vinhos da Borgonha (BIVB, na sigla em francês), disse à AFP também em abril deste ano que era esperado que, pelo menos, 50% da produção da Borgonha fosse afetada. Em Chablis, a perda estimada foi entre “80 e 90%”, segundo Frédéric Gueguen, do escritório da Federação de Defesa da denominação Chablis. 

Este conteúdo também foi checado pelo R7, Aos Fatos e G1.

*Uma vez instalada a extensão InVid-WeVerify no navegador Chrome, clica-se com o botão direito sobre a imagem e o menu que aparece oferece a possibilidade de pesquisa da foto em vários buscadores.

30 de julho de 2021 Acrescenta no parágrafo 8 informações sobre metadados do vídeo