A imagem não mostra o crânio de um crocodilo pré-histórico, trata-se de uma peça criada para a TV

Copyright © AFP 2017-2021. Todos os direitos reservados.

Uma fotografia que mostra um homem inclinado sobre o suposto crânio de um crocodilo pré-histórico foi compartilhada mais de 1,3 mil vezes nas redes sociais ao menos desde o início de janeiro de 2021. Mas isso é falso, pois o objeto visto na imagem é uma peça cenográfica criada para uma série de televisão. 

“O crânio de um Purussaurus, um dos maiores crocodilos que já viveu”, indica a legenda de algumas publicações compartilhadas no Facebook (1, 2), no Instagram (1, 2) e no Twitter (1).

Outras postagens comparam o crânio visto na fotografia com a espécie Sarcosuchus (1, 2).

Alegações semelhantes foram igualmente compartilhadas em espanhol, inglês e hebraico.

Captura de tela feita em 18 de outubro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

O Purussaurus é um grande crocodilo pré-histórico que viveu na América do Sul durante o Mioceno médio a tarde, entre 15 e sete milhões de anos atrás. Ao longo desse período, eles se estabeleceram em áreas de enormes bacias de drenagem, formando ambientes deltaicos, estuarinos, pantanosos e fluviais.

Estima-se que os adultos dessa espécie medissem 12,5 metros de comprimento e pesassem 8,4 toneladas. 

Já o Sarcosuchus, por sua vez, que viveu na África e na América do Sul, chegou a medir até 12,1 metros e a pesar oito toneladas. 

Para a televisão

Uma busca reversa pela foto viralizada forneceu como resultado uma imagem semelhante publicada no site de uma empresa britânica chamada Crawley Creatures, que, segundo indica, é especializada em “moldagem, escultura, usinagem, design eletrônico, engenharia e trabalho artístico”.

A fotografia é intitulada “Crânio de Deinosuchus”, em referência a um gigantesco parente extinto de jacarés na América do Norte:

Captura de tela feita em 11 de outubro de 2021 da peça cenográfica da Crawley Creatures ( . / )

A AFP entrou em contato com o diretor da empresa, Jez Gibson-Harris, para perguntar sobre a imagem viralizada. A isso, ele respondeu que a réplica do “Crânio de Deinosuchus”, como aponta o site, “foi feita pela Crawley Creatures Ltd. antes de 2009 para a série de televisão Prehistoric Park e que o homem visto na fotografia é um técnico que trabalhava para a empresa.

“Crocodilo moderno”

A imagem de um crânio compartilhada nas redes sociais “não é nem um nem outro”, assegurou o paleontólogo uruguaio Matías Soto, também pesquisador do Programa de Desenvolvimento das Ciências Básicas (Pedeciba), sobre a possibilidade de a peça vista na fotografia ser uma réplica de parte de um Purussaurus, como afirmam as postagens, ou de um Deinosuchus, como indicou a empresa britânica. 

O paleontólogo argentino Diego Pol, pesquisador especializado na evolução dos répteis arcossauros (crocodilos e dinossauros), por sua vez, comentou que a peça fotografada “tem o tamanho aproximado, mas não parece ser muito semelhante ao Purussaurus, mas sim baseada em um crocodilo moderno”.

Soto ainda detalhou: “O formato do crânio [da foto viralizada] não tem nada a ver” com o dos crocodilos pré-históricos e nem sequer se assemelha ao de um Sarcosuchus, outro crocodilo da era dos dinossauros.

“Você olha de cima ou de lado e não tem nada a ver com o formato”, pois não há semelhanças com as narinas, partes da área maxilar ou da mandíbula, acrescentou. “Parecem ter feito um crânio meio genérico de crocodilo, mas de tamanho familiar”, concluiu o especialista, referindo-se à grande proporção das medidas.

Martín Ubilla, PhD em Ciências Biológicas, observa algumas nuances. O pesquisador e professor uruguaio informou que, segundo artigos recentes (1, 2), o Purussaurus neivensis, que é o menor dessa espécie, tem as narinas externas “mais parecidas com as como estão na réplica” porque “são menores” em comparação com os outros tipos. O comprimento de seu crânio pode ser inferior a um metro, indicou.

Entretanto, “o crânio do Deinosuchus tem diferenças importantes”. “Com a questão das réplicas, na verdade, tudo pode acontecer”, opinou Ubilla.