Vulcão Cumbre Vieja entra em erupção na ilha de La Palma, no arquipélago das Ilhas Canárias, em 19 de setembro de 2021 ( AFP / Desiree Martin)

Risco de tsunami no Brasil após erupção de vulcão na Espanha é muito baixo, segundo especialistas

Copyright © AFP 2017-2021. Todos os direitos reservados.

Publicações que tiveram mais de 77 mil interações nas redes sociais desde, pelo menos, 13 de setembro de 2021 alegam que a erupção do vulcão Cumbre Vieja, nas Ilhas Canárias, poderia provocar um tsunami que atingiria a costa leste do continente americano, inundando, inclusive, cidades brasileiras. No entanto, especialistas consideram que as chances de um tsunami chegar ao Brasil em decorrência dessa erupção vulcânica, ocorrida em 19 de setembro, são muito pequenas. Um acadêmico explicou à AFP que, para que ondas gigantes de fato atingissem o país, seria necessário um deslizamento gigantesco de um pedaço da ilha.

“O vulcão Cumbre Vieja em La Palma, nas Ilhas Canárias, que fica no continente africano, entrou em erupção neste domingo (19). De acordo com informações, ele pode provocar um tsunami que atingiria todas a costa leste de todas as américas, ou seja, o que inclui a Paraíba, após um tsumani”, diz uma das publicações feitas no Facebook (1, 2, 3). 

Conteúdo semelhante circulou também no Twitter (1, 2, 3) e Instagram (1, 2).

Captura de tela feita em 20 de setembro de 2021 de uma publicação no Twitter

A erupção do Cumbre Vieja

Situado no centro da ilha de La Palma - uma das sete que compõem o turístico arquipélago das Canárias, perto da costa do noroeste da África -, o vulcão Cumbre Vieja entrou em erupção no último 19 de setembro. 

A lava do vulcão destruiu mais de 100 casas. Esta foi a primeira erupção do vulcão registrada na ilha desde 1971 e provocou a retirada de quase 5.000 pessoas.

O vulcão, contudo, vinha sendo monitorado desde o dia 11 de setembro devido a uma forte recuperação de sua atividade sísmica. No dia 13 de setembro, o governo das Ilhas Canárias convocou o comitê científico do Plano Especial de Proteção Civil e Atenção às Emergências de Risco Vulcânico das Ilhas Canárias (Pevolca), que elevou o nível de alerta de verde para amarelo em alguns municípios da ilha. 

O nível de alerta amarelo significava que deveriam ser intensificadas as atividades de monitoramento do vulcão e que a população deveria ficar atenta às comunicações oficiais. 

Quando foi registrada a erupção do vulcão, o Pevolca atualizou a situação para Emergência Nível 2, mudando o nível de alerta para vermelho.

Risco de um tsunami no Brasil?

Com os diferentes níveis de alerta e as notícias sobre o aumento da atividade sísmica na ilha, os possíveis riscos de um tsunami que atingiria o Brasil têm sido discutidos desde, pelo menos, 13 de setembro nas redes sociais. 

No entanto, especialistas avaliam que o risco de tal erupção provocar ondas de grande porte capaz de atingir o Brasil é muito baixo. 

Em 16 de setembro, a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) publicou em sua conta no Twitter que o assunto chegou a ser discutido há cerca de 20 anos atrás, quando foi publicado um trabalho de geólogos americanos que explicaram que seria necessário que a atividade vulcânica fosse excepcional a ponto de derrubar uma parte da ilha, provocando um deslizamento gigantesco em direção ao mar.

Ainda segundo as publicações da Rede, no caso da região das Canárias, a atividade sísmica é comum e é monitorada.

Marcelo Assumpção, professor do IAG - Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e integrante da RSBR, explicou ao Checamos em 20 de setembro que o risco de tal erupção gerar um tsunami que atingiria toda a costa leste das Américas é “extremamente pequeno e não precisa ser levado em conta”. E adicionou:

Ainda segundo o professor, mesmo que as vibrações das erupções provocassem algum deslizamento, não significa que esse seria grande o suficiente para provocar um tsunami em todo o Atlântico. “O deslizamento teria de ser de um bloco da ordem de 25 km de comprimento, 15 km de largura e 1,5 km de espessura. E teria de se movimentar muito rapidamente em direção ao mar. Deslizamentos deste tamanho são extremamente raros”, acrescentou.

Para Belén Benito, pesquisadora da área de sismologia na Universidade Politécnica de Madrid, a erupção registrada em 19 de setembro não foi grande o suficiente para gerar um tsunami em costas brasileiras. Além disso, a especialista destacou à AFP que a erupção ocorreu em terra, gerando alguns fluxos de lava que atingiram o mar, mas que não vão gerar um tsunami.

“Talvez se houvesse um tsunami ele pudesse atingir a África, porque o tsunami tem um longo percurso. Mas para o vulcanismo nas Ilhas Canárias, um tsunami é difícil, a menos que haja um movimento subaquático. Uma série de fatores adversos teriam que ocorrer em cadeia: que a explosão fosse no mar, que gerasse um deslizamento marinho, que ao mesmo tempo o deslizamento gerasse um tsunami... É muito improvável”, afirmou.

Já o Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo publicou em seu perfil no Facebook que, apesar de a hipótese ser plausível, seria necessário um tremor muito grande para gerar um tsunami, algo que, segundo o Centro, não está associado ao histórico de sismicidade e erupção da região das Canárias. 

“Em 1755 ocorreu um tremor de magnitude 8 em Lisboa, com epicentro no mar que ficou conhecido como o grande terremoto de Lisboa e que se confunde com a própria história da Sismologia. Este evento gerou um tsunami que acabou chegando até a costa Brasil. Fora esse episódio, não há mais nenhum registro de ondas gigantes no Atlântico”, diz a publicação da instituição.